Diretor de 'Bacurau' diz que é uma honra integrar o júri do Festival de Cannes

'É um prazer ter essa troca e ainda fazer parte de um momento histórico. Afinal de contas, o Festival de Cannes é um elemento importante da história do cinema, e a gente está em um momento no sentido de tentar entender as mudanças que isso está trazendo para o cinema'

Ph. Lebruman/divulgação
Credit...Ph. Lebruman/divulgação

Ao ter seu nome indicado para compor o Júri Oficial de Cannes (6 a 17 de julho) , que será presidido pelo cineasta norte-americano Spike Lee, o cineasta brasileiro Kleber Mendonça Filho adicionou um item importante ao seu currículo: a participação em anos consecutivos, como jurado da mostra oficial, nos dois festivais mais importantes do mundo. Em 2020 ele também integrou o júri internacional do Festival de Berlim, presidido pelo ator britânico Jeremy Irons.

Nascido em Recife (PE), Mendonça Filho iniciou sua carreira como programador, crítico de cinema e jornalista. Após ter feito vários curtas-metragens, estreou em longas com o documentário “Crítico”. Em 2012, realizou “O Som ao Redor”, listado pelo “The New York Times” como um dos dez melhores filmes do ano. Seguiram-se “Aquarius” (2016), que concorreu à Palma em Cannes, e “Bacurau” (2019), em codireção com Juliano Dornelles, que ganhou o Prêmio do Júri no festival francês.

Em entrevista exclusiva ao JORNAL DO BRASIL, Mendonça Filho falou sobre os desafios impostos pelo momento atual ao Cinema Brasileiro, e disse que é uma honra participar do júri em Cannes.

Depois de integrar o júri da Berlinale em 2020, o que representa estar no júri da mostra oficial do Festival de Cannes neste ano?

Não vou ao cinema há 15 meses, então isso pra mim é uma volta, é a ideia de ver filmes num espaço coletivo. E é uma honra estar no júri do Festival de Cannes. No geral, eu gosto de participar de júris. É uma oportunidade de conhecer pessoas que trabalham no que eu trabalho: cineastas, realizadores, produtores e produtoras. E é também uma oportunidade de ver, em primeira mão, o que o cinema está fazendo.

É um prazer ter essa troca e ainda fazer parte de um momento histórico. Afinal de contas, o Festival de Cannes é um elemento importante da história do cinema, e a gente está em um momento no sentido de tentar entender as mudanças que isso está trazendo para o cinema, não só por causa da pandemia, que é um incidente – um evento de grande importância e preocupação pelo qual o mundo todo está passando –, mas também o que está acontecendo com o cinema nessa transição do streaming, dos questionamentos sobre a permanência da sala de cinema, enfim, tudo isso pra mim é muito importante, e não deixa de ser matéria prima pras coisas que eu penso, pras coisas que eu faço.

Embora a semelhança de Berlim e Cannes como os dois festivais mais importantes do cinema, o mundo de 2020 já não é o mesmo de 2021. Como você imagina será esse desafio?

Como falei antes, eu acho que o desafio agora é talvez voltar de um período de isolamento; no meu caso eu de fato fiquei em casa com minha família a maior parte do tempo, foram 15 meses. Então eu acho que voltar à sala de cinema talvez traga algum tipo de sensação, de sentimento muito conectado a esse momento agora. Mas, de qualquer forma, eu imagino que nós como grupo, como júri, estaremos vendo filmes da mesma forma que sempre vimos. Nessa seleção talvez tenha filmes que se comunicam com esse momento agora, talvez tenha filmes que poderiam ter sido feitos ou lançados 10 anos atrás. Filmes são orgânicos, a gente não tem uma forma de prever como vai ser.

Apesar de tudo que está acontecendo, agravado aqui no Brasil, o que faz com que o cinema brasileiro esteja produzindo tanto, participando de tantos festivais, prestigiado, enfim, resistindo e mostrando para o mundo o viés estratégico, inspirador e humanístico da arte?

Os filmes brasileiros estão sendo lançados e estão participando dos festivais. Ano passado, mesmo não tendo acontecido, o Festival de Cannes selecionou “Casa de Antiguidades”, do João Paulo Miranda; neste ano, “Medusa” (de Anita Rocha da Silveira) está na Quinzena dos Realizadores. É claro que há uma movimentação forte de resistência no cinema brasileiro. Mas muito disso ainda é resultado das políticas públicas dos últimos 15 anos, que moldaram de fato o cinema brasileiro como expressão artística, como expressão cultural do Brasil e também como mercado. São 300 mil profissionais que trabalham no audiovisual em todas as frentes: publicidade, cinema televisão, cinema comercial, cinema de autor.

E é fato o desastre que está acontecendo no Brasil, com esse governo. A destruição da indústria cultural do Brasil permanece como um dos grandes mistérios pra mim. Eu não entendo como um governo decide como projeto acabar com a área da economia cultural, uma área da economia que é extremamente inteligente. Afinal de contas, quando filmes como “Bacurau”, “Aquarius”, “Boi Neon”, “A Vida Invisível” passam no mundo inteiro, a presença do Brasil no mundo se torna mais forte. É o chamado “soft power’, que países como a Coreia do Sul vêm desenvolvendo e desempenhando há um bom tempo de maneira exemplar. Mas o que a gente está vendo agora é ainda o que sobrou dos projetos que estavam em execução a partir de políticas públicas extremamente inteligentes e que foram desenvolvidas ao longo desse tempo. Acho que, quando sou convidado para participar do Festival de Cannes, de uma maneira muito natural, termino representando o Brasil. Embora eu não seja diplomata, represento o Brasil com ideias, com a minha presença, com os filmes que já fiz. E fico muito feliz de exercer esse papel.

Espero também que esse desastre passe e que o Brasil retome o caminho da democracia, o caminho da inteligência. E que seja o Brasil que pode ser. E não ser sabotado como está sendo em todas as áreas. Não é só na área cultural, mas também na área da economia, dos direitos humanos e na área de uma visão social. Que ele não seja um país apenas para uma pequena parcela, mas para todos os brasileiros.