Yanomamis dão prêmio ao Brasil no Festival de Berlim

‘A Última Floresta’, do diretor paulista Luiz Bolognesi, levou o de ‘melhor filme’ da mostra Panorama

Pedro J. Márquez
Credit...Pedro J. Márquez

O Festival de Berlim encerrou a segunda fase de sua 71ª edição, após onze noites de sessões em vários pontos da cidade. Como já noticiado, a Berlinale neste ano foi realizada no formato híbrido em duas fases: a primeira, em março, totalmente on-line, e esta segunda etapa com eventos presenciais ao ar livre.

Na primeira fase, o festival divulgou os prêmios da competitiva oficial e de algumas paralelas, quando o Urso de Ouro, principal prêmio do evento, foi para “Bad Luck Banging or Loony Portn”, de Radu Jude (Romênia).

Agora, nesta segunda etapa, foram anunciados os prêmios de Audiência para o melhor filme da competitiva e o da mostra Panorama, conquistado por “A Última Floresta”, do diretor paulista Luiz Bolognesi. A Panorama é a mais prestigiada paralela da Berlinale e esse tributo é um dos prêmios mais importantes do festival.

“A Última Floresta” – produzido pela Gullane e pela Buriti Filmes – segue o povo Yanomami vivendo, há mais de mil anos, em um território ao norte do Brasil e ao sul da Venezuela, atualmente sob a proteção do xamã e líder político Davi Kopenawa, que busca preservar as tradições da comunidade.

O prêmio – que existe desde 1999 – apresentou nesta edição 16 longas-metragens. Foram computados 5.658 votos que deram o troféu para “A Última Floresta”.

De Berlim, onde foi acompanhar as sessões presenciais, Bolognesi expressou sua alegria com a premiação.

“Estamos extremamente felizes. Foi uma excelente surpresa receber este importante prêmio do Festival – escolhido entre documentários e filmes de ficção da Panorama – especialmente neste momento em que os Yanomamis estão sob ataques dos garimpeiros”, ressaltou Bolognesi, que antes de receber o prêmio concedeu uma entrevista para Michael Stütz, curador da Panorama, quando falou sobre o filme, sua expectativa e o significado desse importante prêmio.

A propósito, em entrevista exclusiva ao JORNAL DO BRASIL, em fevereiro último, quando o filme foi selecionado para a Berlinale, Bolognesi havia expressado seu otimismo quanto à receptividade que esperava do público, o que a conquista do prêmio da audiência agora veio comprovar.

“É difícil avaliar, mas eu fiz algumas poucas sessões e a reação foi muito positiva. “A Última Floresta” tem uma densidade poética e de contemplação. Então eu acho que, para pessoas com mais abertura, mais escuta para novas histórias e para conhecer o outro, o filme vai responder bem”, disse o diretor na ocasião.

O prêmio para melhor filme da competitiva foi para “Mr. Bachmann and his Class”, de Maria Speth (Alemanha), escolhido com 8.498 cédulas computadas, entre os 15 filmes da mostra. Ambientado em uma cidade alemã, segue um professor carismático que oferece uma chave a seus alunos de diferentes países para que se sintam em casa na Alemanha. O prêmio foi entregue para Speth por Mariette Rissenbeek e Carlo Chatrian, diretores da Berlinale.

Stülz, por sua vez, entregou o prêmio de audiência para Bolognesi, Pedro José Márquez e Talita del Collado, que receberam o troféu pessoalmente nesse domingo (20), em cerimônia de gala no festival.

Logo após, houve uma sessão de “A Última Floresta”, que já tinha sido ovacionado pelo público em exibição anterior nessa segunda fase do festival.

ENTREVISTA

Macaque in the trees
O diretor Luiz Bolognesi (Foto: Daniel Seiffert/Berlinale/divulgação)

Michael Stütz: É uma honra ter você novamente conosco na Berlinale, quando seu filme “Ex-Pajé” foi exibido na Panorama na edição 2018 do festival. Como o projeto de “A Última Floresta” teve início e como foi o trabalho com o povo Yanomami?

Luiz Bolognesi: É uma honra estar de volta na Panorama, que é uma importante vitrine para o mundo, uma oportunidade de dar voz aos povos indígenas da Amazônia que estão passando por um momento difícil.
No meu último filme, eu abordei a aculturação do povo indígena como resultado da atuação de igrejas evangélicas dentro de seus povoados, e como isso faz com que um Pajé vá perdendo a influência com a catequização de seu povo. Quando estava fazendo esse último filme, tive vontade de contar uma história oposta a essa, que mostrasse povoados nos quais os pajés são uma instituição forte, que sustenta sua cultura e conseguem conter o avanço desse ataque ao seu complexo cultural. O que sustenta esses xamãs são suas crenças, mitos e a ciência que eles conhecem. Pensei então que seria importante fazer um documentário sobre isso.
A seguir, eu li um livro do Xamã Davi Kopenawa (‘A Queda do Céu – palavras de um xamã Yanomami’ – Companhia das Letras), que me fez querer fazer um filme com ele. Sua tribo é no meio da Amazônia, em um lugar inacessível por carros ou até por barcos, sendo apenas possível chegar lá em pequenas aeronaves. Eles vivem de acordo com sua própria cultura, próximo à forma como vêm vivendo nos últimos 4000 anos. Então eu convidei o Davi para fazer esse filme comigo.

Michael Stütz: Davi também é creditado como roteirista de seu filme. Quanto tempo você passou convivendo com eles e como foi sua experiência...?

Luiz Bolognesi: Eu fui até à floresta e lá nós passamos duas semanas arquitetando nosso roteiro. Ele não escreveu exatamente, mas foi quem decidiu as histórias que iríamos contar. Nós desenvolvemos as histórias o ouvindo, decidindo as coisas juntos, e quebrando algumas regras também. Mas não as regras mágicas deles, como por exemplo: nós não podemos filmar bebês, porque eles acreditam que a câmera pode capturar o espírito deles, mas se eles forem idosos e fortes, podem entender serem filmados.

Michael Stülz: Indo à floresta com sua equipe para filmar, ficou bem claro que você os deixou contar suas próprias histórias. Quando você viu o material na hora de montar o filme, na hora de escolher os sons, o quão difícil foi manter um equilíbrio entre a sua atuação como cineasta e a autoria das histórias por parte dos Yanomamis?

Luiz Bolognesi: Foi um trabalho bastante difícil. O mais interessante é que para eles, para a maioria dos povos indígenas, na verdade, não há uma separação entre o mundo dos sonhos e o mundo da realidade. Sonhos são reais, tão reais como a luz do dia.



Cena de 'A Última Floresta', de Luiz Bolognesi
O diretor Luiz Bolognesi