Diretor, ator e personagem falam em Tribeca sobre filme baseado em história real de refugiados

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Foto: Benoit Beaulieu
Credit...Foto: Benoit Beaulieu

O Festival de Cinema de Tribeca, iniciado no último dia 9, prossegue com sua abrangente programação que inclui muitos filmes focados em histórias reais.

Este é o caso de “Peace by Chocolate”, estreia do diretor Jonathan Keijser, que teve sua première mundial nessa quinta feira (17).

O filme é baseado na história da família Hadhad em Damasco, na Síria, proprietária da fábrica Peace by Chocolate (como eles a chamavam), que funcionava há 30 anos e foi destruída por um bombardeio em 2012.

Após a destruição e a perda de tudo, eles fugiram para um campo de refugiados no Líbano e de lá foram para Nova Escócia, uma cidade rural do Canadá onde recomeçaram seu negócio. No início venderam os chocolates para fazendeiros e posteriormente conseguiram um acordo de distribuição nacional.

A trama é centrada em Tarek – filho de Issam Hadhad, o patriarca da família –, um jovem dividido entre seguir seu sonho de se tornar médico ou dar continuidade ao legado de chocolate dos Hadhads.

Tarek é protagonizado pelo sírio Ayham Abou Ammar, e o patriarca é interpretado por Hatem Ali, em seu último trabalho. O ator faleceu de ataque cardíaco aos 58 anos, no final do ano passado.

“Peace by Chocolate” está sendo exibido em Tribeca, na prestigiada mostra dramática de longas-metragens do festival.

ENTREVISTA

Após a projeção, houve uma conversa com perguntas do moderador para o diretor, para o protagonista que vive Tareq, e para o verdadeiro Tareq Hadhad.

Para o diretor:

Seu filme é baseado em uma história real. Quando você ficou sabendo da história da família, e como foi o trabalho para construir a atmosfera aconchegante e esperançosa que o filme tem?

Jonathan Keijser - “Em 2015, as autoridades canadenses deram as boas vindas para mais de cinco mil refugiados, e nós ficamos animados para ver como nossos novos vizinhos iriam ser recebidos. Ouvi a história de Tareq na rede de notícias canadense CBC, um momento em que o fato estava ganhando notoriedade no Canadá. Vi que, na história dele, tem muito do que nós canadenses queremos exportar para o mundo. Também me chamou a atenção o elemento do chocolate e a busca de Tareq para se formar como médico, o que me fez querer usar meu histórico de documentarista para criar uma ficção esperançosa e otimista sobre essa história.”


Para o ator:

Quando você estava se preparando para estrelar esse filme, teve a oportunidade de conversar com o Tareq sobre a vida dele? Como isso afetou a forma para você se preparar para o papel?

Ayham Abou Ammar - “Sim, claro, foi uma honra poder interpretar o Tareq. Ele é uma ótima pessoa e um ótimo sírio também. O importante para mim é que não é uma história apenas sobre o Tareq. Eu mesmo me vi no personagem e na história que interpretava. Foi incrível participar, e eu realmente acho que é mais do que só um filme.”

Para Tareq Hadhad:

Como foi a experiência de ver sua vida real em um grande filme? Agora você começa todas as suas conversas com “fizeram um filme sobre mim” (risos)

Tareq - “Foi maravilhoso ter participado de ‘Peace by Chocolate’. Vejo muitos filmes sobre pessoas que já faleceram, e fico feliz de poder ver um filme feito sobre mim enquanto ainda estou vivo.” (risos).

Quais eram suas expectativas de ter sua vida adaptada para a tela de cinema? E como você se sentiu vendo a si próprio?

Tareq - “Tem sido muito surreal. Eu sempre me emociono quando lembro as primeiras conversas que tive com o Jonathan sobre o filme. Pra mim é incrível a história que criamos, é uma história de sobrevivência e de resiliência, e estou muito feliz porque toda a equipe levou o projeto tão a sério. E o resultado é que temos um filme belíssimo que ficará para as próximas gerações. Fazer um filme esperançoso como esse em uma época tão difícil para todos – momento em que muitas pessoas estão de luto por familiares perdidos – é como uma luz no fim do túnel. Para mim é um privilégio ter uma voz em uma época em que vemos tantos exemplos de sonhos despedaçados. Espero que possamos transmitir um senso de inspiração para o mundo, dizendo que o melhor ainda está por vir. Como seres humanos, nós temos uma grande capacidade de nos adaptar, então a gente pode se ajustar a qualquer realidade. Mal posso esperar para ver a reação do público internacional, para que as pessoas do mundo todo se vejam no filme. Há tantas histórias como essa, e é importante que elas sejam contadas.”