Ricardo Calil fala de ‘Cine Marrocos’, que une realidade e ficção

Documentário conta a história de pessoas – sem tetos, refugiados africanos e imigrantes latino-americanos – que ocuparam o prédio de um antigo cinema do Centro de São Paulo

Divulgação/Muiraquitã Filmes
Credit...Divulgação/Muiraquitã Filmes

“Cine Marrocos”, de Ricardo Calil (“Narciso em Férias”, “Uma Noite em 67”), produção da Muiraquitã Filmes, estreia na próxima quinta (3) nos cinemas.
O documentário conta a história de pessoas – sem tetos, refugiados africanos e imigrantes latino-americanos – que ocuparam o prédio de um antigo cinema do Centro de São Paulo, e o processo artístico que os transformou em estrelas de cinema. A equipe do filme reabriu a sala de projeção e exibiu para eles os títulos que estiveram em cartaz ali 60 anos antes, como “A Grande Ilusão”, de Jean Renoir, e ”Noites de Circo”, de Ingmar Bergman. Em continuidade, eles participaram de uma oficina de teatro e reencenaram, como atores, trechos desses clássicos.

O documentário tem muitos pontos altos: entre eles, seu viés metalinguístico, bem como a visível química entre a equipe de realizadores e os que participaram das reencenações.
O filme venceu o Festival É Tudo Verdade, de 2019. Este ano, Calil voltou a conquistar o prêmio com “Arrependidos”, que dirigiu com Armando Antenore.

Macaque in the trees
Cine Marrocos (Foto: Divulgação/Muiraquitã Filmes)

Em entrevista exclusiva ao JORNAL DO BRASIL, o cineasta falou sobre a motivação para realizar “Cine Marrocos”, a ideia da oficina de teatro e da encenação dos clássicos pelos moradores da ocupação, além dos desafios enfrentados para fazer o documentário.


JB - Qual foi a motivação para fazer o filme? Qual a origem do projeto?

CALIL - O projeto nasce quando eu leio, no início de 2015, uma notícia na internet sobre a ocupação no prédio do antigo “Cine Marrocos”. A ideia de um cinema que se torna casa me pareceu fascinante. Ainda mais porque se tratava de um cinema com uma história rica (inaugurado em 1951 como o mais luxuoso da América do Sul, sede do primeiro festival internacional de cinema do Brasil, em 1954) e de uma ocupação com grande riqueza e diversidade humana (além de brasileiros, muitos refugiados africanos, imigrantes latino-americanos e uma importante comunidade LGBT). Depois de ler a notícia, marquei uma visita à ocupação, fiquei fascinado pelo espaço e seus moradores. Era um local que misturava o luxo do passado (que podia ser visto ainda nas paredes vermelhas e nas esculturas de gesso) e a precariedade do presente (no hall e no saguão do cinema havia dormitórios separados por divisórias de escritório). E algo me chamou muito a atenção nessa primeira visita: a sala de cinema em si estava fechada, sem cadeiras, sem tela. Como eu acho que poucas coisas podem ser tão melancólicas quanto um cinema vazio, na hora veio a ideia de fazer um documentário que mostrasse a ocupação e o cinema sendo reaberto para seus moradores, mesmo que de maneira provisória.

E a ideia da oficina de teatro, como surgiu?

A ideia da oficina de teatro surgiu logo em seguida à ideia de reabrir o cinema. Foi um gesto intuitivo, mas que logo nos pareceu com grande significado. Era uma forma de promover encontros mais profundos entre universos aparentemente distintos: passado e presente, ficção e realidade, luxo e precariedade e assim por diante. Além de tudo, foi uma maneira de conhecer mais a fundo os moradores e descobrir seu talento, sua força, suas histórias, sua beleza.

Poderia falar um pouco da escolha dos moradores? Foi na medida em que você foi conhecendo as pessoas?

Em primeiro lugar, a gente fez um trabalho de corpo a corpo pra convidá-los para as sessões dos filmes, contando a história daquele espaço, do festival, da importância de reabrir o cinema. Nas sessões, a gente os convidou para se inscreverem na oficina de teatro. Cerca de 50 moradores se inscreveram. Passamos dois dias conversando com eles individualmente, ouvindo suas histórias, explicando como seria o processo. Trinta deles se mostraram disponíveis para fazer um mês de oficina, com aulas noturnas quase diárias. Nesse processo, conhecemos esses moradores a fundo, fizemos entrevistas mais longas com eles, descobrimos histórias de vida riquíssimas, debatemos filmes, cenas e personagens. Foi uma experiência mágica e transformadora para a equipe. Espero que tenha sido assim também para os moradores.

E a escolha dos filmes? Foram escolhidos previamente, surgiram no processo, houve alguma mudança?

Os filmes foram escolhidos por terem sido exibidos, todos, sem exceção, no festival de 1954, no próprio Marrocos [que era a sede do evento. Filmes exibidos em outras salas foram descartados]. Ou seja, foram filmes apresentados naquele mesmo local, 60 anos antes, para a plateia da elite paulistana. Dessa vez, para os moradores da ocupação. Fez parte do nosso objetivo de promover o encontro entre passado e presente naquele espaço. Além dos filmes que estão no corte final (“Crepúsculo dos Deuses”, “Noites de Circo”, “A Grande Ilusão”, “Júlio César”, “Pão, Amor e Fantasia”), exibimos outros do festival: o americano “A Princesa e o Plebeu”, o mexicano “A Rede”, os brasileiros “Na Senda do Crime” e “O Saci”. Durante a oficina, os moradores experimentaram diferentes filmes, cenas e personagens e nos deram retorno sobre quanto se sentiam confortáveis e com vontade de assumir determinados papeis. E assim foi se definindo o elenco das reencenações.

Qual foi o maior desafio para realizar “Cine Marrocos”?

Na filmagem, fazer tudo o que a gente se propôs a fazer com pouco tempo e pouco dinheiro. Quando visitei o Marrocos pela primeira vez, havia a perspectiva de uma reintegração de posse dali a três meses. Por isso não tivemos tempo de levantar muito dinheiro e muitos recursos. A filmagem foi possível graças ao talento e à dedicação de uma incrível equipe que trabalhou como uma espécie de cooperativa de guerrilha, com a ajuda de alguns moradores também na produção.

Na edição, reunir muitas camadas de material (entrevistas, arquivos, cinema, filmes antigos, ensaios, reencenações) em um resultado coeso. Isso só foi possível graças ao brilhantismo da montadora Jordana Berg, que fez antes mais de uma dezena de filmes de Eduardo Coutinho e que, para minha sorte, montou cinco longas documentais que eu dirigi.



Ricardo Calil e Valter Machado
Cine Marrocos
Tatiane Weskler e Fagner Oliveira, personagens do documentário