Mostra de Artes Cênicas Tiradentes em Cena homenageia Elisa Lucinda

Com formato totalmente on-line, o festival é marcado por um leque variado de gêneros e diversidade na programação

Foto: divulgação
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Começa na próxima quarta-feira (19), a 9ª edição da Mostra de Artes Cênicas Tiradentes em Cena. Por conta da pandemia, será realizado totalmente on-line, com programação ao vivo e gravada, incluindo pré-estreias, espetáculos, oficinas, bate-papos, cenas curtas e seminário, tudo disponível gratuitamente.

Assim como todos nós, o festival também foi atravessado pelo desejo de afetar. O tema - afeto - traz para as telas os novos processos do fazer teatral, com universos simbólicos, novas linguagens, ferramentas e territórios. Quase uma revolução que nos atravessa.

Mantendo sua característica em oferecer ao público um leque variado de gêneros, não abre mão de sua linguagem e do sentimento de ocupação. As apresentações, que aconteciam no teatro e em locais alternativos, como casarões, igrejas e espaços públicos, agora ocupam diversas plataformas digitais, como youtube, instagram e zoom.

Aline Garcia, idealizadora e diretora do Tiradentes em Cena, acredita que é uma fase de experimentos. “Estamos, de certa forma, rompendo com a tradição teatral, e ainda aprendendo com a nova linguagem. Muita gente pensa no que se perde com isso, mas acredito também num ganho muito grande. São formas inovadoras de fazer e de atingir novos públicos, além de facilitar a produção. Conseguimos incluir grupos de lugares mais distantes e que, presencialmente, ficaria mais difícil viabilizar devido ao alto custo da logística. O ambiente virtual amplia o acesso e a abrangência da mostra.”

Embora tenha a discussão do “ser ou não ser teatro” e o que seria esta nova arte que aflorou com a pandemia, o hibridismo teatral com a câmera e o modelo de streaming nas artes cênicas proporciona novas sensações. “Uma interpretação para um outro recurso é legal porque se torna uma fusão entre o real e a ficção, o público e o privado. Você consegue fazer com que os espaços domésticos e os espaços escolhidos tenham uma autenticidade que, de alguma forma, também traduza esta nova linguagem nesse espaço-tempo diferenciado que é o virtual”, comenta Aline.

A programação conta com mais de 20 espetáculos de gêneros variados. Duas estreias marcam o festival: “Listas, números, assuntos inacabados” (Juiz de Fora/MG), do grupo Corpo Coletivo; e “Fragmentos possíveis” (São Paulo/SP). Surfando na onda do teatro-web, cenas como “Clã[email protected]: uma viagem cênico-cibernética” (Natal/RN), da Cia. ClownsdeShakespeare; e “Bixa viado frango” (Mombaça - CE), com Silvero Pereira. Um dos destaques da mostra é o espetáculo “Mulheres que nascem com os filhos” (Rio de Janeiro/RJ), com texto e atuação de Samara Felippo e Carolinie Figueiredo, dirigido por Rita Elmôr.

A atriz, poeta e cantora Elisa Lucinda é a homenageada deste ano e abrirá o festival com uma apresentação ao vivo pelo instagram. A artista tem uma relação amorosa com Tiradentes e São João del Rey, pois foram os primeiros lugares em que apresentou seus espetáculos. “Em tempos de pandemia, ser homenageada neste festival é um luxo. Depois que eu virei uma artista mais conhecida e com vários livros publicados, me sinto levada à essa volta da roda da fortuna, esse passar de maneira tão bonita, sendo homenageada nesta cidade que foi o começo da minha carreira.” No youtube, apresenta o espetáculo “A paixão segundo Adélia Prado”, e encerra a mostra com um recital inédito, “Na boca da palavra”, construído dramaturgicamente através do mergulho poético de sua obra, em parceria com a atriz e diretora Geovana Pires, com quem fundou a Companhia da Outra.

Num momento em que a arte faz das tripas coração para sobreviver, Elisa acredita que podemos pensar a cultura em uma análise macro, por sua incrível resistência mesmo em momentos pandêmicos e sob fortes artilharias do Estado. Para ela, é bonito ver que, mesmo com tanta batalha e dificuldade que a carreira apresenta e convoca, existe um reconhecimento. “Penso que valeu a pena, porque tem uma obra que as pessoas veem, compartilham, provam, desfrutam e concordam. Mais que ficar rico e famoso, acho que o artista quer ser compreendido. Ser homenageada num momento de tamanha dificuldade no mundo, significa ser compreendida.”

Uma das autoras que mais vendem no Brasil, Elisa publicou 18 livros em sucessivas edições, que percorrem o país sendo lidos, interpretados e encenados, enquanto seu nome figura dando títulos a bibliotecas e espaços culturais. A Coleção Amigo Oculto, de livros infanto-juvenis, lhe rendeu em 2002 o Prêmio Altamente Recomendável (FNLIJ), e o romance “Fernando Pessoa, o cavaleiro de nada”, foi finalista no Prêmio São Paulo de Literatura 2015. Recentemente lançou o seu “Livro do avesso, o pensamento de Edite”. Atriz versátil e de voz potente, recebeu o Prêmio Especial do Júri pelo filme “Por que você não chora?”, de Cibele Amaral, no 48º Festival de Cinema de Gramado. Seu solo “Parem de falar mal da rotina” segue vivo, em 2021 comemora 19 anos de sucesso.

Sobre o novo formato virtual, Lucinda se sente muito sugada por essa relação com o outro através da tela: “Faz com que a gente se esforce mais para ser compreendido, se esforce mais para vencer aquela barreira, que é a única maneira possível agora, até que aconteça a vacinação total da população. Isso gera também uma relação muito direta com as máquinas. Estamos sempre plugados, ligados a carregadores e fones. Eu acredito que, o que a gente veicula nessas relações digitais, o conteúdo tem muita importância por poder ser o antídoto dessa espécie de veneno da máquina. Para mim, o antídoto é a arte. Ela que nutre. A arte é aquele leite materno, vindo da seiva da vida”, conclui.

A Mostra de Teatro Tiradentes em Cena é realizada com a parceria cultural Sesc em Minas, Campus Cultural UFMG e Fundação Rodrigo Melo Franco de Andrade, parceria de
internacionalização Corredor Latinoamericano de Teatro, promoção cultural Jornal “O Tempo”, Rádio Super 91.7 FM, com apoio da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo e Governo de Minas Gerais, Secretaria Especial da Cultura, Ministério do Turismo e Governo Federal, através da Lei Aldir Blanc.

Como diz Elisa Lucinda, “a arte é isso: seiva da vida, o antídoto para tempos de guerra”.

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