Plano de Bolsonaro para os negros é o extermínio ou a submissão, diz escritora

Abandono da população negra vem desde 14 de maio de 1888, diz Sueli Carneiro, fundadora do Geledés, que ganha biografia

Bob Wolfenson
Credit...Bob Wolfenson

“Entre a esquerda e a direita, sei que continuo preta.” Foi o que Sueli Carneiro disse à revista Caros Amigos em fevereiro de 2000, ao comentar a disputa política entre os então candidatos à prefeitura paulistana.

A frase virou emblema, ressoou por décadas e acabou no título de “Continuo Preta”, a biografia em que a jornalista Bianca Santana registra mais de 40 anos de ativismo político e intelectual de uma das maiores figuras do feminismo negro brasileiro.

Apesar de reclamar que a citação “foi usada e abusada” mais do que deveria, Carneiro diz que o diagnóstico ainda segue de pé.

“Nós, negros, temos pouco a dizer a respeito da direita, porque seu projeto sempre foi muito claro em relação a nós. Subalternização ou extermínio. Nosso lugar era limpar privada dos brancos”, afirma. “Quem nos prometeu o reino dos céus foi a esquerda. Estamos tentando obrigar a esquerda a entregar.”

Na mesma manhã de quinta em que biógrafa e biografada davam esta entrevista, acontecia a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, a chacina na favela do Jacarezinho. Os dados mais recentes, vale lembrar, mostram que negros são vítimas de 74% das mortes violentas no Brasil, um cenário que as entrevistadas veem agravado pelo governo Bolsonaro.

“Quando começou o processo de desconstrução de direitos que esse governo vem promovendo, eu senti o baque, mas imediatamente pensei que a maior parte da nossa história nós estivemos sem política pública. Sempre estivemos abandonados, desde o 14 de maio de 1888”, diz Carneiro.

“Esse hiato que nos permitiu algumas conquistas é um ponto fora da curva da nossa história secular de exclusão e abandono. É nisso que temos que confiar. Em todas as estratégias que há 500 anos a gente desenvolve para estar aqui, apesar de tudo. Para continuar aqui, apesar de tudo.”

Tanto Santana quanto Carneiro concordam ser prioridade se posicionar contra o atual presidente, que a biografada define como “uma aberração política” que o movimento negro poderia ter previsto.

Desde a Constituição de 1988, afirma Carneiro, a fundadora do Instituto da Mulher Negra mais conhecido como Geledés, houve sucessivos governos que criaram “uma sensação de que enfim o país havia entrado num círculo virtuoso, em que o enfrentamento de desigualdades históricas tinha se iniciado”.

“Houve descuido, eu acho, da minha geração. A gente se empolgou, mesmo. Era impossível acreditar que um país tão violento, com história tão brutal, pudesse ser eternamente assim. A tentação era acreditar que, enfim, nós chegávamos a um momento em que as coisas se articulavam na direção da redenção.”

“E deixamos de travar o combate essencial, que era o ideológico”, afirma Carneiro. “A gente se ocupou por um longo período de desenhar e implementar políticas públicas e esqueceu como as ideologias conservadoras também estavam prosperando. Não fomos suficientemente atentos.”

A luta nos anos depois da redemocratização, diz ela, foi contra o mito da democracia racial. E sua geração sabia que, “quando tirasse essa capa, uma dimensão perversa iria emergir”. “Mas acho que a gente nunca está preparado para a perversidade que a violência racial pode alcançar.”

Uma das medidas criticadas do governo foi o cancelamento do Censo deste ano, uma decisão que o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, determinou que fosse revertida.

Segundo Santana, a decisão política de não ter um Censo explicita o que esse governo quer “ocultar e manipular”. “Os nossos dados são gravíssimos, mas não ter dados tira a possibilidade de enfrentar qualquer questão.”

Carneiro tem no currículo uma publicação seminal da década de 1980 em que, sozinha e munida de calculadora, tabulou os dados sobre a situação socioeconômica das mulheres negras, numa época quando esse recorte não era realizado.

As duas lembram, em coro, a campanha “Não Deixe sua Cor Passar em Branco”, que afirmava a importância da autodeclaração racial das pessoas negras nos anos 1990, fundamental para conhecer as especificidades da sociedade brasileira.

“Esse avanço sobre o Censo é absolutamente coerente”, acrescenta Carneiro. “É consistente com um tipo de governo que tem a violência do Estado contra populações que considera descartáveis e indesejáveis. Suprimir o Censo é negar o acesso às consequências dessa política.”

É palpável na entrevista a sensação de uma troca de passes entre gerações, evidenciada pelo gesto de espalmar a mão para cima que Carneiro, de 70 anos, e Santana, de 37, faziam uma à outra, estimulando a tomar a palavra.

A autora de “Continuo Preta” ganhou notoriedade na luta antirracista do país depois de publicar “Quando Me Descobri Negra”, há seis anos. O livro, que traz a trajetória de seu reconhecimento como uma mulher negra, é um marco na vida da jornalista.

Depois da publicação, ela passou a ler textos de Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento e Sueli Carneiro. “Quando li ‘O Poder Feminino no Culto aos Orixás’, que a Sueli coescreveu, foi o momento decisivo, comecei a fazer parte do movimento negro.”

Anos depois, a biógrafa ouviu a ativista por mais de 160 horas para construir “Continuo Preta”, dando sequência a uma trajetória que tem ampliado o reconhecimento público de Carneiro.

Rosane Borges biografou a ativista dentro da coleção "Retratos do Brasil Negro" e Djamila Ribeiro criou um selo com o nome da intelectual, lançado há três anos com a coletânea “Escritos de uma Vida”, reunindo os principais textos de Carneiro.

Um ativismo antirracista e feminista de tantas décadas desembocar no Brasil de Bolsonaro pode ser lido como o final amargo de uma longa trajetória. Não é essa a narrativa de Sueli Carneiro.

Santana lembra que o ex-marido da ativista, Maurice, que é astrólogo, comparou a biografada ao “topo de uma montanha”. Seu mapa astral, segundo ele, revela uma “solidez que é capaz de observar coisas a uma distância que poucas pessoas conseguem enxergar”.(Marina Lourenço e Walter Porto/Folhapress)