Hoje tem música instrumental das periferias na internet

Mais do que um projeto de música instrumental - o que já seria louvável, pensando-se no quão o gênero tem valorização aquém de seus muitos talentos no País -, o Festival Instrumental Mulambo Jazzagrário pode ser considerado um projeto político-musical. Especialmente agora.

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Sua primeira edição aconteceu em 2016, na zona oeste do Rio de Janeiro. Um movimento em homenagem ao ativismo do multi-instrumentista carioca Fernando Grilo, que faleceu precocemente aos 22 anos, em 2015, quando viajava para fazer uma parceria com o percussionista Naná Vasconcelos, e influenciou uma geração de músicos, produtores e agitadores culturais da cena música instrumental independente e suburbana do Rio de Janeiro. Através de iniciativas como "Jazz na caixa" (na Vila Aliança, em Bangu), "Realengo of Jazz" (no Viaduto de Realengo), e a "Oficina de música criativa (em Manguinhos, Benfica), agitando a cena musical dos subúrbios da cidade com uma caminhada militante a favor da visibilidade da cena instrumental periférica, Grilo atingiu espaços marcados pela violência policial e abandono do estado, alimentando sons de qualidade de modo acessível e gestando assim uma rede de possibilidades para músicos das favelas e guetos.

Teaser Festival Instrumental Mulambo Jazzagrário from barrucho on Vimeo.

Pois ao longo de seus quatro anos, o Mulambo Jazzagrário, festival batizado com o nome da banda de Grilo, vem se tornando uma ferramenta de resgate das narrativas sonoras marginais e busca servir como janela de visibilidade para a música instrumental periférica criada e potencializada nos subúrbios do país, que muitas vezes não alcança os grandes centros e a grande mídia, visto que o gênero é estigmatizado como algo hermético e elitista, mesmo com a popularização de ritmos como o choro e o samba-jazz.

Sua sexta edição começou nesse sábado (10) e continua neste domingo (11), a partir das 16h, em formato on line, no youtube da Rádio Escada, com patrocínio da Lei Aldir Blanc, o que possibilitou a reunião de grandes nomes da música instrumental aos novos talentos garimpados por Nathália Grilo, viúva de Fernando Grilo, e Roberto Barrucho, que assinam a curadoria.

“A programação partiu de algumas premissas: o desejo de mostrar uma síntese do que foi o festival até aqui, então fizemos questão de convidar grupos que já figuraram em outras edições. E também de expandir o olhar para além da periferia e ter na programação também grandes referências do gênero, como Carlos Malta, Amaro Freitas e Djalma Côrrea, a fim de fazer uma reunião de diferentes gerações e, sobretudo, de realidades, assim como propor encontros inusitados com o clima de jam sessions que temos na nossa essência”, comenta Roberto Barrucho.

Nathalia Grilo complementa: “As jams sempre foram a grande pulsação da música instrumental em sua origem libertária, que é uma das nossas bandeiras. Assim como os inferninhos foram importantes não só na formação do gênero, mas também no sentido de empoderar músicos marginalizados, o festival se propõe a ser um espaço no subúrbio do Rio de Janeiro em que eles possam trocar, compartilhar, se desenvolver, se profissionalizar, encontrar com seus iguais e também com suas inspirações, que mostram algo importantíssimo: o caminho de transpor abismos é possível”.

As apresentações foram todas gravadas no início de março, na Arena Hermeto Pascoal, em Bangu.

PROGRAMAÇÃO DESTE DOMINGO

16h - JOVEM PALEROSI + JEOLÍONAIZ - Outra jam proposta pelo festival, desta vez reunindo dois projetos de São Paulo: Jovem Palerosi, músico, produtor musical e artista multimídia que mistura jazz, música eletrônica e ritmos regionais brasileiros e já colaborou com diversos artistas da cena instrumental e eletrônica, com Jeolíonaiz, dupla formada por Jerona Ruyce e Fabio Olí, de Diadema, interior do estado, que funde jazz a ruídos cotidianos em improvisações com instrumentos percussivos, sopros e bateria no que chamam de “ciência do acaso”. O show em conjunto é todo costurado por performances usando máscaras feitas por elementos reciclados e figurinos elaborados em uma apresentação teatral.

17h- DO NADA + MARIA BONITA - Um encontro proposto pelo festival entre o trio Do Nada, de Bangu, que com sua longa caminhada é uma referência na formação de outros grupos e artistas do subúrbio. Sua musicalidade funde o jazz a outros gêneros como o rock e o manguebeat pernambucano. No show, convidam a cantora e compositora Maria Bonita, outra figura importante na cena da região.

18h - LATA DOIDA - Banda de Realengo que acompanha o festival desde seu início, nascida de um projeto social que transforma sucata em instrumentos musicais. Os instrumentos, que podem não ser levados a sério num primeiro momento, surpreendem muito em sua musicalidade. Sua apresentação está muito ligada à tradição oral, em contações de histórias, geralmente feitas por mulheres, que integram as apresentações.

20h - DEMBAIA - Grupo composto por cinco mulheres no bairro Lins, Rio de Janeiro, que fazem um resgate das tradições africanas, especialmente da música e corpo. A apresentação conta com uma orquestra de tambores e performances de expressões do candomblé e outros elementos negros. “O show foi incrível, o que mostra o quão realmente precisamos ter mais mulheres no festival”, diz Nathália.

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