Miguel Vellinho faz história no mundo dos bonecos e das gentes

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Artista múltiplo, Miguel Vellinho está completando 35 anos de carreira, trajetória que o encontra, aos 54 de idade, cada vez mais produtivo. Combativo também. Em várias frentes, o fundador da Cia PeQuod Teatro de Animação faz história no mundo dos bonecos e das gentes. Faz um ano ele e os artistas do grupo suaram a camisa para manter a sede do grupo na Rua da Glória, através da campanha S.O.S. PeQuod, que reuniu fundos para manter o imóvel em que estão instalados com cenários, acervo e mantém um centro de pesquisa de linguagem faz uma década. Alugado, o sobrado foi moradia de ninguém menos que o escritor Machado de Assis. "Agradecemos muito o apoio de todos. Sem a 'vaquinha' seria impossível chegar até aqui", destaca. Ainda há bastante a ser feito, mas já é possível respirar. Inclusive para caprichar ainda mais na carpintaria e concepção do aguardado "Pinóquio", montagem inédita que marca os 20 anos da PeQuod.

A montagem ainda não tem data para estrear. Já conquistou o patrocínio do Banco do Brasil, mesmo que há três anos foi o palco do incrível "A última aventura é a morte", inspirado em Heiner Müller, sucesso arrebatador de crítica e público. Bonecos falam língua de adultos também, como demonstrou esta montagem da PeQuod, que parecia antever os dias sombrios em todos os setores da sociedade no Brasil e no mundo.

Macaque in the trees
O Velho da Horta, de Gil Vicente (considerado o primeiro dramaturgo em língua portuguesa) que desde a estreia, em 2002, nunca mais deixou de ser montado (Foto: Foto: divulgação)

Nestes 21 anos de trabalho, a companhia carioca é referência de ousadia, seriedade e chancela de bons espetáculos. Caso do infanto-juvenil "O Velho da Horta", de Gil Vicente (considerado o primeiro dramaturgo em língua portuguesa) que desde a estreia, em 2002, nunca mais deixou de ser montado. Verdadeira obra de ourivesaria assistida por centenas de espectadores anualmente dentro e fora do Brasil. Sábado e domingo, via Sympla, a peça pode ser assistida de graça às 16h. Como tudo que leva a assinatura de Miguel, a chance do risco não foi desperdiçada. Assim sendo, mesmo com a pandemia, equipe e atores se fecharam há um mês no Teatro Dulcina, no Rio, para, diante de 3 câmeras, encenarem a peça. O resultado tornou a montagem um híbrido no mínimo curioso de teatro e, vá lá, cinema.

Esta versão de O Velho da Horta foi contemplada pelo edital “Retomada Cultural RJ", lançado pela Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa, através da Lei nº 14.017, de 29 de junho de 2020 - Lei Aldir Blanc. "Ao adaptar para o teatro de bonecos esta obra do século XVI, o espetáculo apresenta aos jovens espectadores de hoje o importante autor clássico que é Gil Vicente, considerado o primeiro grande dramaturgo da língua portuguesa, além de revelar a universalidade do tema central da peça – o amor – a qualquer tempo", afirma o diretor. O universo cinematográfico é elemento na construção de muitas peças da PeQuod, inclusive a citada "A última aventura é a morte". "Quando realizamos 'O Velho da Horta', porém, não havia esse anseio. Justamente por causa da pandemia, nesse cenário tão inesperado, fazemos esse experimento com o nosso espetáculo mais assistido, mais apresentado, que nos formou".

Mesmo diante da mazela da Covid-19, Miguel enfileira trabalhos. Na UNIRIO, está à frente da coordenação de um grande seminário para o centenário de nascimento de Maria Clara Machado com início em abril e duração por todo o mês de maio; e com a participação de nomes como Cacá Mourthé, Sura Berditchevsky, Ricardo Kosovski, Lidia Kosovski, Inês Cardoso, Flora Sussekind, Guida Vianna, Louise Cardoso, Jorginho de Carvalho, e outros formando um arco de temas em torno da dramaturga, encenadora e fundadora do Tablado. O seminário é a junção de duas disciplinas ministradas por Miguel Vellinho [Teatro Infanto-Juvenil e Teatro de Formas Animadas]. Será aberto ao público em geral via YouTube. O encenador aceitou o convite para dirigir o documentário "Os invisíveis", que tem à frente uma companhia de Nova Friburgo. O filme mostra a tragédia das chuvas que castigaram Nova Friburgo há 10 anos e tudo o que se deu depois. Além desta realização, é um dos editores do número 18 da Revista Mamulengo que vai abordar a Presença Negra no Teatro de Animação Brasileiro: além de acadêmicos, o rol de colaboradores vai incluir personalidades da política e artes, como Antonio Pitanga e Benedita da Silva, além da escritora Conceição Evaristo.



Miguel Vellinho
O Velho da Horta, de Gil Vicente (considerado o primeiro dramaturgo em língua portuguesa) que desde a estreia, em 2002, nunca mais deixou de ser montado