As muitas relações do ato de ver

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Foto: Corey Hughes/Instituto Sundance
Credit...Foto: Corey Hughes/Instituto Sundance

O Festival de Sundance deu continuidade, nesse domingo (31), à programação das mostras competitivas, cujas exibições estão acontecendo em plataforma online, formato adotado nesta edição 2021 em face da pandemia.

Um dos destaques foi o esperado “All Light, Everywhere”, de Theo Anthony, que concorre na mostra Documentário Americano.
O diretor está de volta ao festival, onde em 2016 apresentou “Rat Film”, seu filme de estreia e um dos mais originais daquele ano.
Neste seu novo trabalho, Anthony investiga a correlação entre como vemos as coisas e o que está envolvido no ato de ver.

O desenrolar da trama direciona nosso olhar para algumas conexões muitas vezes surpreendentes entre tecnologia e mecânica de movimento, bem como o efeito desses fatores nas formas como construímos nossas realidades. Sem ser prescritivo ou didático, Anthony expõe habilmente quão politizado pode ser o ato de ver, e quão falhos podem ser nossos métodos de enquadrá-lo.

Theo contou com o talento do compositor Dan Deacon e do diretor Corey Hughes, responsáveis respectivamente pela perfeita adequação da trilha sonora e da fotografia à mensagem que queria transmitir.

Na entrevista após a projeção, Anthony - acompanhado de Deacon e Hughes - explicou que, para expressar o cerne do filme, foi necessário percorrer uma rede ampla explorando questões abrangentes como tecnologia da realidade virtual e câmeras corporais policiais.

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O diretor Theo Anthony (Foto: Instituto Sundance)

“Após o episódio de Freddie Gray (negro morto em uma patrulha em 2015 em Baltimore, EUA), houve muitas discussões sobre reforma policial, e uma das consequências desses debates foi a exigência de uso de câmeras de corpo nos policiais. Eu não sabia muito sobre essas câmeras e, após pesquisar sobre uma das empresas que as produz, descobri que ela também fabricava armas. Meu interesse por essa aproximação entre câmeras e armas foi uma primeira motivação para realizar “All Light, Everywhere”, que é resultado de um processo muito colaborativo com todos que fizeram parte dele”, ressaltou o diretor, complementado por Deacon: “Meu trabalho com Theo foi sempre enriquecedor. A forma de pensar dele realmente mudou muito minha concepção sobre a composição de trilhas e me fez entender como sua lógica sônica funciona. Para esse filme, nós utilizamos uma forma híbrida: um pouco com composições tradicionais e um foco grande na mixagem de som”, contou o compositor.

Respondendo a uma pergunta sobre a construção da identidade visual do filme, Hughes explicou o resultado conseguido no processo que foi adotado para construí-la. “Uma parte importante é que a câmera está ao mesmo tempo reagindo e iniciando novas reações em diferentes partes do filme”, detalhou o fotografo.

“All Light, Everywhere” é mais um candidato forte para conquistar o prêmio da mostra americana de documentários, a segunda mais importante do festival depois da americana de dramas.



Cena de All Light, Everywhere
O diretor Theo Anthony