A obra-prima de Gilberto Freyre

O mundo atual é multipolar e o eixo do poder econômico volta-se novamente para o oriente que nos influenciou e m 1936, gilberto freyre publicou sobrados e mucambos , que é a continuação de casa-grande e senzala e talvez a sua verdadeira obra-prima. é um belo estudo do embate entre o ocidente e o oriente, no brasil, durante o século 19, em que defende a ideia de que a cultura brasileira havia sido gerada a partir de uma matriz oriental de valores, hábitos e conceitos sobre o mundo.

Desde muito cedo a ideia de uma orientalidade e de um amouriscamento do brasil apareceria na obra de gilberto freyre. a impressão de que o brasil era, de alguma forma, um prolongamento da cultura oriental nos trópicos.

Na perspectiva de gilberto freyre, as conexões entre o brasil, no período de sua formação, e o oriente, árabe ou asiático, iam muito além de aspectos arquitetônicos, tendo sido determinantes na conformação da sensibilidade brasileira, em sua visão de mundo e seus valores culturais mais marcantes.

O oriente tornou o brasil possível, no dizer de freyre. foram os saberes orientais que permitiram a construção da “maior civilização moderna dos trópicos”. freyre estava valorizando o oriente como matriz cultural formadora do brasil em contraposição à matriz europeia.

Nesse sentido, ele destaca o papel exercido pelos navegadores e conquistadores portugueses como intermediários entre as duas metades do mundo, a ocidental e a oriental. “foram com efeito os portugueses que primeiro trouxeram do oriente à europa o leque, a porcelana de mesa, as colchas da china e da índia, os aparelhos de chá, e parece que também o chapéu de sol” ( casagrande e senzala , pág. 275).

Deve-se, aliás, registrar que na maior parte das vezes em que gilberto freyre fala em oriente, está, na verdade, se referindo tanto à áfrica quanto à ásia.

No seu discurso, o oriente é uma ampla matriz cultural que abriga todos os valores não europeus e, inclusive, antieuropeus.

Vejamos: “a verdade é que o oriente chegou a dar conside rável substância, e não apenas alguns dos seus brilhos mais vistosos de cor, à cultura que aqui se formou e à paisagem que aqui se compôs dentro de condições predominantemente patriarcais de convivência humana (...).

Modos de viver, de trajar e de transportar-se que não podem ter deixado de afetar os modos de pensar” ( sobrados e mucambos , pág. 424).

Sobrados e mucambos apre senta o brasil do século 19, como um capítulo relevante da história da luta entre ocidente e oriente. o estopim da luta, que, na realidade, é uma guerra simbólica, teria sido a chegada da corte portuguesa ao brasil, em 1808: “a colônia portuguesa da américa adquirira qualidades e condições de vida tão exóticas – do ponto de vista europeu – que o século 19, renovando o contato do brasil com a europa (...) teve para o nosso país o caráter de uma reeuropeização” ( sobrados e mucambos , pág.

309). junto com a família real vieram produtos ingleses e modismos franceses. estes chegavam cercados de tal prestígio e poder de sedução que tornavam difícil a resistência às “vozes de sereia do ocidente” ( sobrados e mucambos , pág. 453).

O século 19 representou, assim, no brasil, o fim do “primado ibérico de cultura”, que nunca fora “exclusivamente europeu, mas em grande parte, impregnado de influências mouras, árabes, israelitas, maometanas”.

O oriente perdia a batalha contra o ocidente, na mesma medida em que a “manteiga francesa”, a “batata-inglesa”, o “chá também à inglesa” agiam no sentido da “desafricanização da mesa brasileira, que até os primeiros anos da independência estivera sob maior influência da áfrica e dos frutos indígenas” ( casa-grande e senzala , pág. 458).

Por essa via o brasil se afastava de si mesmo e se entregava a um processo de descaracterização, numa frágil tentativa de transformar-se numa europa tropical.

O mundo atual é multipolar e o eixo do poder econômico volta-se novamente para o oriente, do qual temos influência decisiva em nossa formação.

As relações, desavenças e semelhanças entre oriente e ocidente são temas de grande relevo. por essa necessidade de compreensão de nossas raízes e de aprofundar o diálogo entre culturas e países no contemporâneo é que traremos, na fliporto 2011, o tema orientes e ocidentes – diálogos, para discutirmos tal questão e mostrarmos a importante influência oriental na formação do brasil.