Filha adotiva de Cartola, Creuza recuperou as composições e pediu que seu filho as completasse

Alvaro Costa e Silva Menino de calças curtas, Reizilan, ao lado de muitos outros de sua idade, costumava brincar nas vielas e becos do Morro de Mangueira e ruas adjacentes.

Um dia, deu com o avô, perto do Jardim Zoológico, em frente a uma placa de rua, calado, mão no queixo, uma pose contemplativa.

“Ele deve estar fazendo uma música”, intuiu o menino.

É que o avô dele era simplesmente o Cartola, um dos maiores e mais completos compositores de samba de todos os tempos.

Já iniciado nos segredos harmônicos do violão pelo próprio avô, Reizilan, naquele momento, quis sentar ao lado de Cartola.

Perguntar o que ele estava pensando.

Era uma música que estava surgindo? Era um amor do passado? Era uma glória da Estação Primeira de Mangueira, escola de samba que fundara em 1928, na companhia dos amigos Zé Espinguela e Carlos Cachaça, dando-lhe inclusive as cores verde e rosa? Enfim: Reizilan teve imensa vontade de ser parceiro de Cartola.

Bem mais tarde – depois da morte do avô, em 1980 – ele viu o sonho realizado.

Reizilan é filho de Creuza dos Santos, antes afilhada e depois filha de criação do casal Angenor de Oliveira (nome de batismo do compositor) e Deolinda, sua primeira mulher, que engravidara duas vezes, mas perdera os filhos.

Com veia artística, Creuza começou a cantar cedo, aos 14 anos, acompanhando Geraldo Pereira, outro grande compositor de Mangueira, em apresentações na Rádio Nacional.

Em 1976, Creuza participou do segundo disco solo de Cartola, produzido por Juarez Barroso para a Discos Marcus Pereira, talvez o mais importante e conhecido de sua carreira, por ter clássicos como As rosas não falam e O mundo é um moinho .

No álbum, Creuza interpretou Ensaboa , parceria com Monsueto, e Sala de recepção , ambas em dueto com Cartola.

Em 1984, quatro anos depois da morte do pai, Creuza esteve no LP Cartola entre amigos , com produção artística de João de Aquino e pesquisa musical de Marília Trindade Barbosa e Arthur L.

de Oliveria Filho, biógrafos do compositor.

Nele, constavam várias composições inéditas relembradas por Creusa, que interpretou Rolam dos meus olhos e participou do coro em quase todas as gravações.

Mas ainda havia outras inéditas no caminho de Creuza.

E de Reizilan..