☰
✕

A luz de Renoir

...

Por PATRICIA SECCO

Renoir em uma foto rara de autor desconhecido e em autorretrato

Durante minha visita ao Museu Ordrupgaard, na região de Copenhague, fotografei um retrato de Pierre-Auguste Renoir que me encantou: Retrato de uma romena (Madame Iscovesco), de 1877. Diante daquela mulher, fiquei observando como a pintura pode nos aproximar de alguém que viveu em outro tempo. Há uma presença naquele rosto que atravessa os anos e chega até nós.

O grande laço branco chama o olhar. Suas pinceladas parecem guardar o movimento do tecido e conduzem nossa atenção para o rosto. O vermelho nos cabelos e junto ao peito cria pontos de intensidade, enquanto a roupa escura dá força à luminosidade da pele. Ao fundo, as cores se misturam suavemente, sem disputar espaço com a figura.



O que mais me toca é a expressão dessa mulher. Seu olhar se desvia de quem a observa, e o discreto sorriso deixa uma sensação de intimidade. Fico imaginando o que estaria pensando naquele instante. Essa é uma das possibilidades mais bonitas do retrato: a imagem oferece uma presença, mas conserva o mistério de uma vida.

Nascido na França em 1841, Renoir iniciou sua trajetória pintando porcelanas e tornou-se um dos artistas fundamentais do impressionismo. Participou da primeira exposição do grupo, em 1874, ajudando a construir uma pintura interessada na luz, na percepção e na experiência do instante.

Nesse retrato, percebo a liberdade de uma pincelada que permanece visível. O branco do laço recebe azuis e cinzas; a pele ganha nuances rosadas; o fundo parece vibrar em torno dos cabelos. Como artista, gosto de acompanhar esses caminhos da cor e imaginar os gestos que deram origem à imagem. A matéria da pintura participa da emoção que sentimos.

Fotografar essa obra foi uma maneira de guardar o encontro e prolongar meu olhar sobre ela. Ao rever a imagem, volto aos pequenos detalhes: uma sombra no rosto, a delicadeza da boca, o vermelho que reaparece.

Saí com vontade de pintar. Há obras que nos provocam justamente assim: despertam a atenção e renovam nosso desejo de criar. Nesse Renoir, encontrei uma delicadeza que continua viva — feita de cor, de luz e da curiosidade inesgotável pelo ser humano.