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O Mundo de Tunga

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Por PATRICIA SECCO

O artista entre o vermelho. A cor é uma das suas marcas registradas de sua imponente arte

Há artistas que criam obras para serem contempladas. Tunga criava mundos para serem atravessados.

Antônio José de Barros Carvalho e Mello Mourão, o Tunga, nasceu em Palmares, Pernambuco, em 1952, e morreu no Rio de Janeiro, em 2016. Foi um dos grandes nomes da arte contemporânea brasileira, construindo uma produção que transitou entre escultura, desenho, fotografia, vídeo, instalação e performance. Literatura, psicanálise e ciência também atravessavam profundamente seu pensamento artístico.



O que mais me interessa em Tunga é justamente essa liberdade. Ele não parecia aceitar fronteiras. Ferro, cobre, imãs, vidro, feltro, borracha, ossos, cabelos e tantos outros elementos podiam entrar em suas obras. Os materiais nunca estavam ali apenas por sua aparência: carregavam memória, tensão, desejo e simbolismo.

Talvez por eu também gostar tanto de experimentar materiais e técnicas diferentes, sinto uma proximidade com essa maneira de pensar a arte. Gosto da ideia de que uma obra não precisa nascer presa a uma linguagem. Ela pode crescer, ocupar o espaço, ganhar corpo e até transformar a presença de quem está diante dela.



Tunga chegou a criar uma palavra para algumas de suas experiências: “instaurações”. Eram trabalhos nos quais a instalação se construía também por meio de ações performáticas. A obra, portanto, não era necessariamente algo imóvel e terminado; podia acontecer diante de nós.

Em True Rouge, de 1997, talvez uma de suas imagens mais fascinantes, o vermelho domina o espaço entre redes, recipientes de vidro e formas suspensas. Tudo parece pulsar. No Inhotim, a obra ganhou uma galeria própria e permanente, permitindo que o visitante literalmente entre no universo criado por Tunga.

Outra obra que me chama muito a atenção é Palíndromo Incesto, realizada entre 1990 e 1992. Tunga amplia elementos ligados à costura e à tecelagem — agulhas, dedais, fios e cestos — e trabalha com cobre e magnetismo. Há nela uma ideia de ligação, atração e continuidade que me encanta particularmente.

Em Deleite, de 1999, ferro e couro formam uma grande estrutura articulada com correntes, ímãs, sinos, cumbucas e funis. É quase como encontrar os vestígios de um ritual de uma civilização que não conhecemos — uma narrativa situada entre ficção e ciência.



Sua trajetória também ultrapassou as fronteiras brasileiras. Tunga participou de importantes exposições internacionais, entre elas as Bienais de Veneza e Havana e a Documenta de Kassel. Em 2005, tornou-se o primeiro artista contemporâneo a apresentar uma obra no Musée du Louvre, em Paris.

Mas talvez o lugar onde eu mais mergulhei intensamente em seu universo , talvez seja no Inhotim, onde fui 5 vezes, em Minas Gerais. Ali, suas obras ganharam espaços permanentes, incluindo a Galeria True Rouge e a Galeria Psicoativa Tunga.

Quando olho para Tunga, penso que a arte pode nascer exatamente desse encontro entre coisas que aparentemente não pertencem umas às outras: o pesado e o delicado, o científico e o imaginário, o corpo e a matéria, a razão e o desejo.

Tive o privilégio de ser amiga de Tunga e de conviver com ele para além de sua obra. Em alguns jantares, passávamos horas em altos papos, daqueles que pareciam não ter começo nem fim. Sua inteligência me impressionava, mas era sobretudo a maneira como ele misturava criatividade, pensamento e palavras que me fascinava. Tunga fazia verdadeiras viagens enquanto falava — criava imagens, provocava ideias, inventava caminhos inesperados. Conversar com ele era, de certa forma, entrar também em seu universo artístico: misterioso, poético, inquieto e absolutamente fascinante.
E talvez esteja aí uma das maiores forças de sua obra.

Tunga não nos entrega respostas.

Ele nos deixa entrar em seus mistérios…