A Giverny de Claude Monet
...
Já fui três vezes a Giverny e, mesmo assim, tenho vontade de voltar.
Há lugares que a gente visita e há lugares que ficam dentro da gente. Para mim, Giverny é assim. Adoro tudo: a casa rosa de janelas verdes, os interiores cheios de personalidade, os caminhos tomados pelas flores, o lago, a ponte japonesa… Mas é principalmente o jardim que me encanta.
Claude Monet chegou a Giverny em 1883 e viveu ali até sua morte, em 1926. Durante mais de quarenta anos, transformou aquele lugar em seu universo particular. Era apaixonado por jardinagem e pensava as flores, as cores e os caminhos quase como quem compõe uma pintura.
Quando caminho por aqueles jardins, fico imaginando que maravilha deve ter sido morar naquela casa e ter o ateliê naquele lugar. Para um artista que passou a vida tentando capturar a luz, não poderia haver cenário mais perfeito. A luminosidade da França, especialmente naquela região da Normandia, muda a paisagem a cada hora. E Monet sabia olhar para essas mudanças como ninguém.
Ele não pintava simplesmente uma paisagem. Pintava o instante. A mesma água nunca era a mesma água. Uma fachada se transformava conforme o sol. Uma sombra azul podia aparecer onde nossos olhos esperavam encontrar apenas cinza.
Talvez seja isso que mais me emocione em Monet: perceber que a pintura pode nascer da observação de uma coisa aparentemente simples — e transformá-la completamente através da cor, da luz e do olhar.
O lago de Giverny é, para mim, um dos lugares mais mágicos. Monet criou seu jardim de água, construiu a famosa ponte japonesa e plantou as ninfeias que depois pintaria tantas e tantas vezes. Começou a pintar essas flores em 1897, fascinado pelos reflexos da luz, das nuvens e da vegetação sobre a água.
Quando vejo suas ninfeias, penso que, aos poucos, Monet deixou de pintar apenas o que estava diante dele. A água vira cor, reflexo, movimento. Em algumas telas, quase não sabemos mais onde termina a paisagem e começa a abstração.
E pensar que aquele lago que hoje conhecemos de tantas pinturas estava ali, a poucos passos de sua casa…
Impressionismo.
Gosto especialmente dessa ideia de não tentar aprisionar tudo nos detalhes, mas registrar uma sensação: a atmosfera, a névoa, o reflexo do sol na água, aquele momento que daqui a poucos minutos já será outro.
Como artista, isso me toca muito. A pintura não precisa explicar tudo. Às vezes ela precisa apenas nos fazer sentir.
E há ainda a maravilhosa série da Catedral de Rouen. Monet pintou repetidamente a mesma fachada sob diferentes condições de luz.
O assunto permanecia praticamente o mesmo, mas a pintura mudava completamente.
É uma lição extraordinária para qualquer artista: não é apenas aquilo que vemos que importa, mas como olhamos. Talvez seja por isso que, depois de três visitas, Giverny continue me emocionando. Cada vez que volto, vejo alguma coisa diferente. Uma flor que não estava ali da outra vez, outra luz sobre a água, outra cor refletida no lago.
E fico imaginando Monet saindo de sua casa pela manhã, atravessando o jardim e indo pintar.Que privilégio ter criado um lugar tão bonito para viver e, ao mesmo tempo, ter transformado esse mesmo lugar em arte.
Giverny, para mim, é isso: a sensação de entrar dentro de uma pintura de Monet.
E eu entraria de novo, uma quarta, uma quinta, muitas vezes…