Salvador Dalí - Imagens do Inconsciente

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Por PATRICIA SECCO

Salvador Dalí: Provocador e intenso

Existem artistas que pintam aquilo que veem. Outros pintam aquilo que sentem. Salvador Dalí pintava aquilo que sonhava.

Sempre me fascinou essa capacidade que a arte tem de atravessar a realidade e chegar a lugares que nem sempre conseguimos explicar. Dalí fez exatamente isso. Transformou sonhos, desejos, medos, delírios e imagens do inconsciente em pintura.

Nascido em Figueres, na Catalunha, em 1904, Dalí tornou-se um dos grandes nomes do Surrealismo. Mas, para mim, ele foi muito além de qualquer movimento artístico. Criou um universo absolutamente próprio, onde o impossível parece natural.

Seus relógios derretidos, talvez sua imagem mais conhecida, me fazem pensar sobre algo que nos acompanha durante toda a vida: o tempo. Em A Persistência da Memória, de 1931, o tempo deixa de ser rígido. Os relógios amolecem, escorrem, quase desaparecem. Como acontece com nossas lembranças. O tempo do relógio é uma coisa; o tempo dentro de nós é outra. E é justamente aí que Dalí me interessa profundamente.

Ele se aproximou das ideias de Sigmund Freud e encontrou na psicanálise um território fértil para sua criação. O sonho, o desejo, o medo, o que escondemos e até aquilo que desconhecemos sobre nós mesmos poderiam se transformar em matéria artística.

Acho fascinante pensar que uma tela possa revelar alguma coisa que nem o próprio artista sabia que estava dentro dele. Como artista, reconheço muito esse processo.

Muitas vezes começo um trabalho sem saber exatamente aonde ele vai me levar. Uma imagem chama outra, uma linha encontra outra, uma cor provoca outra. Quando percebo, alguma coisa que estava dentro de mim apareceu diante dos meus olhos. Talvez seja isso que mais me encanta na arte: ela revela.

Dalí também compreendeu que o artista podia ser a própria obra. Seus bigodes extravagantes, suas roupas, seus gestos, suas aparições públicas — tudo fazia parte de uma personalidade construída sem medo do excesso. Ele não queria passar despercebido. Queria provocar. E provocou. Foi pintor, escultor, desenhista, escritor, cineasta, designer. Experimentou linguagens e atravessou fronteiras. Não aceitou ficar preso a uma única forma de expressão.

Isso também me toca profundamente. Nunca acreditei que um artista precise permanecer dentro de uma técnica. Pinto, bordo, trabalho com fios, tecidos, feltragem, instalações, esculturas. A criação pede liberdade. Quando uma ideia aparece, é ela que me diz qual material devo usar.

Dalí dizia, através de sua obra, que a realidade não é suficiente. Eu concordo. Existe o mundo que enxergamos e existe outro, imenso, dentro de nós. Um território de memórias, desejos, fantasias, afetos e imagens que não obedecem à lógica.

Talvez seja por isso que a arte seja tão necessária.

A arte nos permite sonhar acordados.

E Salvador Dalí fez do sonho uma das mais extraordinárias formas de realidade.