Bordar é pintar com linhas

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Por PATRICIA SECCO

Algumas 'pinturas' com linhas, em forma de bordado

Durante muito tempo, o bordado foi visto como uma prática ligada ao universo doméstico. Bordava-se a roupa, o enxoval, toalhas, lenços.

Era associado ao artesanato e, muitas vezes, ao trabalho feminino realizado silenciosamente dentro de casa. Hoje, esse olhar mudou.

 

 

O bordado conquistou um espaço importante na arte contemporânea. Saiu do lugar exclusivamente utilitário e passou a ocupar paredes, galerias, museus e exposições.
O fio deixou de ser apenas ornamento para se transformar em linguagem artística.

E talvez seja justamente isso que mais me interessa.

Na minha Série Ela & Ele, trabalho o bordado sobre o crinol de uma maneira muito próxima à pintura e ao desenho.

Eu não penso no bordado tradicional, com pontos perfeitos, previamente definidos. Eu bordo as linhas como se estivesse pintando.

O fio é o meu traço.

Quando começo uma obra, deixo que ele caminhe.

Às vezes é delicado, às vezes se acumula, se emaranha, atravessa a superfície e até escapa da moldura. Não procuro esconder as pontas ou organizar aquilo que naturalmente quer ser livre.

Esses fios soltos também fazem parte da obra. É como pintar sem tinta. No lugar do pincel, a agulha. No lugar da tinta, o fio. E o crinol se transforma na minha tela.

A transparência desse material também me fascina. Ela permite enxergar o desenho, mas também sua sombra, seu avesso, suas sobreposições. A obra muda conforme a luz e conforme o lugar onde está instalada. Há sempre alguma coisa acontecendo além da superfície.

Na série Ela & Ele, as linhas constroem rostos, corpos, aproximações e distâncias.
Falam dos encontros humanos, das relações, das tensões e dos afetos. Em alguns momentos, já não sabemos exatamente onde termina um e começa o outro.

E é aí que o bordado se torna especialmente potente para mim: uma linha pode unir, separar, prender, atravessar, aproximar ou continuar infinitamente.

A arte contemporânea nos deu essa liberdade maravilhosa de romper fronteiras.
Pintura não precisa existir somente sobre uma tela. Escultura não precisa ser feita apenas de pedra ou bronze.

E bordado não precisa estar apenas sobre uma roupa. Tudo pode se transformar em linguagem e conceito.

Sobre um bordado, existe também emoção, movimento, e isso tudo chama: ARTE
E essa linguagem que venho desenvolvendo através dos fios acaba de me proporcionar uma alegria muito especial: fui convidada para ter uma obra minha em uma publicação dedicada a Clarice Lispector.

Para esse projeto, criei “Clarice em Fios”, um retrato bordado sobre crinol, em azul. Quis traduzir Clarice não apenas pela sua imagem, mas pela força, pela inquietação e pela profundidade que sua escrita carrega.

Bordar Clarice foi, para mim, quase como escrever com a agulha. Cada fio tornou-se uma frase; cada encontro de linhas, um pensamento. E os vazios também dizem muito — assim como na literatura de Clarice, onde aquilo que não é dito pode ser tão intenso quanto as próprias palavras.

 

 

Fiquei muito feliz com o convite porque ele reafirma algo em que acredito profundamente: o bordado contemporâneo não é apenas técnica. É desenho, é pintura, é pensamento, é expressão.

Minha Clarice nasceu assim: não da tinta, mas do fio.

Uma escritora transformada em linhas. Uma imagem bordada como quem escreve.