Delicadeza e desconforto na obra exuberante de Adriana Varejão
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Em uma de minhas viagens a Paris, em 2025, tive a oportunidade de visitar a belíssima exposição da artista brasileira Adriana Varejão na Fondation Cartier pour l’Art Contemporain. Foi uma experiência marcante, daquelas que permanecem na memória muito tempo depois de deixarmos o museu.
Adriana Varejão é uma artista que transforma a história em matéria viva. Sua obra dialoga com a colonização, a miscigenação cultural, a arquitetura, a azulejaria portuguesa e as marcas deixadas pelo tempo. Em suas telas e instalações, a delicadeza dos tradicionais azulejos azuis e brancos é interrompida por rachaduras, fissuras e volumes que parecem revelar carne, vísceras e camadas ocultas da memória.
Caminhando pela exposição, fiquei impressionada com a forma como a artista cria um contraste entre beleza e desconforto. Os azulejos, tão familiares para nós brasileiros, aparecem fragmentados, como se carregassem as cicatrizes da própria história. Em outras obras, elementos da fauna tropical surgem exuberantes, reafirmando a riqueza e a diversidade do Brasil.
A mostra revelava uma artista madura, que domina com maestria tanto a pintura quanto a escultura e a instalação. Cada obra parecia convidar o visitante a refletir sobre identidade, pertencimento e transformação. Nada ali era apenas decorativo; tudo carregava significado e provocação.
Como artista visual, senti uma forte identificação com seu processo criativo. Adriana Varejão não se acomoda em uma única linguagem. Ela experimenta materiais, amplia os limites da pintura e faz a obra ultrapassar a superfície da tela. Talvez por isso sua produção me toque de maneira tão especial.
Também acredito na arte como espaço de pesquisa, transformação e descoberta constante, onde cada nova técnica abre caminhos para novos olhares.
Ao sair da Fondation Cartier, levei comigo a sensação de ter visitado uma exposição profundamente brasileira e, ao mesmo tempo, universal. Adriana Varejão nos mostra que a arte pode revelar as fissuras da história, mas também sua extraordinária beleza. E é justamente nesse encontro entre memória, matéria e imaginação que reside a força de sua obra.
E o famoso e importante Instituto Inhotim, em Brumadinho, MG, desde 2008, mantém uma exposição permanente em um dos pavilhões mais icônicos do museu e que recebe o nome da artista plástica.