Henri Matisse: complexo, profundo, sensível, essencial.

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Por PATRICIA SECCO

A Dança. Uma das obras mais famosas de Matisse

Um dos meus artistas prediletos é o francês Henri Matisse (1869 - 1954).

Grande pintor do fauvismo e muito lúdico, Matisse não nos ensina a pintar. Ele nos ensina a respirar cor — e, sobretudo, a libertar o olhar.

A nova exposição dedicada a Henri Matisse está no Grand Palais em Paris, em que estive visitando e admirando na sexta-feira passada, dia 10, não se apresenta como uma simples retrospectiva; ela se revela como uma travessia sensorial pela liberdade - tudo que eu preciso e que sempre busco.

Quando entrei nos imensos salões do Grand Palais, fui imediatamente envolvida por uma atmosfera que dilui o tempo. Não se trata apenas de observar obras, mas de habitar um pensamento.

Matisse parece nos conduzir por um percurso onde a pintura deixa de ser superfície e se torna espaço — quase arquitetura de cor, e ainda bem que também sou arquiteta para entender essa perspectiva. Seus primeiros trabalhos ainda dialogam com a figuração, com interiores e corpos que carregam uma certa estrutura clássica. Mas, pouco a pouco, essa estrutura se dissolve. A linha perde sua função de contorno e a cor assume o protagonismo absoluto. É como se cada tela fosse uma tentativa de libertar a forma de qualquer peso desnecessário.

 

 

E então chego aos célèbres gouaches découpées. Aqui, Henri Matisse não pinta — ele recorta o mundo.

Papéis coloridos ganham vida em composições que parecem dançar nas paredes, como se estivessem em constante movimento. Há algo de coreográfico nesses recortes, uma leveza que desafia a gravidade e, ao mesmo tempo, uma precisão quase cirúrgica no equilíbrio das formas.

O mais tocante talvez seja perceber que essa fase nasce de uma limitação física. Já fragilizado, Matisse encontra no recorte uma nova maneira de expandir seu gesto. E é nesse momento que sua obra atinge uma potência quase espiritual: quanto menos o corpo responde, mais a criação se expande.

As formas — folhas, algas, estrelas, corpos fragmentados — não são representações diretas da natureza, mas traduções sensíveis de sua essência. São ritmos, respirações, pulsações. A cor deixa de ser descritiva e passa a ser emocional, quase tátil.

Há, ao longo da exposição, uma sensação constante de suspensão. Como se estivéssemos dentro de um jardim inventado, onde o silêncio também é parte da obra. Um jardim onde cada cor vibra por si mesma, sem precisar justificar sua existência.

E, inevitavelmente, esse universo dialoga com a produção contemporânea — com artistas que, como eu em “Tramas”, também busco esse território entre o gesto, a matéria e o invisível. O fio, o tecido, o recorte: tudo parece fazer parte de uma mesma tentativa de reorganizar o mundo através da sensibilidade.

Sair dessa exposição não é simplesmente sair de um espaço expositivo. É retornar ao mundo com um olhar mais leve, mais aberto — como se a complexidade pudesse, de fato, ser reduzida à sua forma mais essencial sem perder profundidade.