Somos muitos

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Por PATRICIA SECCO

A força silenciosa das pinturas de Manu Gomez

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No mesmo dia em que minhas obras ocupavam as salas do Centro Cultural dos Correios, fui atravessada por outras presenças artísticas — e entre elas, a de Manu Gomez se destacou com uma força silenciosa, quase subterrânea.

Sua pintura parece nascer de um tempo interno. Não é imediata, não é ruidosa. É uma construção que se revela aos poucos, como raízes que se expandem sob a terra — invisíveis à primeira vista, mas fundamentais. Em sua recente mostra, composta por uma série de obras inéditas, há uma pesquisa consistente que percorre superfícies, texturas e escalas, como se cada tela fosse também um território em transformação.

Manu pertence a uma geração que pensa a imagem para além do impacto — ela investiga. E ao investigar, tensiona a própria ideia de ver. Sua participação também em exposições coletivas recentes, que discutem a ética e a estética na era da imagem, reforça esse lugar de artista que não apenas cria, mas questiona o tempo em que vive.

Há, em sua obra, um convite à pausa. Em um mundo saturado de estímulos, Manu nos pede delicadeza no olhar. E talvez seja justamente aí que sua arte mais ressoe: naquilo que não se impõe, mas permanece.

Dividir a mesma noite e o mesmo dia com ela foi, para mim, mais do que uma coincidência, foi um encontro entre diferentes formas de tecer o sensível. Cada artista com sua trama, seu gesto, sua verdade.

E é nesse entrelaçar de linguagens que a arte contemporânea pulsa viva, múltipla, necessária. Manu Gomez, na pintura de sua exposição À Beira Mar, Somos Muitos, em uma sala, e eu em outra, com a minha Tramas, arte têxtil.