Gesto congelado
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No final de 2025, estive em Paris. Era inverno. A cidade estava coberta por uma camada branca de silêncio, como se a neve tivesse decidido abafar qualquer ruído do mundo. Foi assim que me encontrei diante de Bouquet of Tulips, do artista americano Jeff Koons, instalada próxima ao Petit Palais.
A mão monumental que sustenta o buquê parece emergir da terra como um gesto congelado no tempo. São tulipas infladas, coloridas, quase infantis — amarelo, azul, vermelho, verde — cores que rompem o branco da paisagem invernal como uma declaração de vida. Criada como homenagem às vítimas dos atentados de 2015, a obra carrega um peso simbólico que ultrapassa sua escala física.
Estar ali, tão pequena diante daquela mão gigantesca, foi uma experiência quase performática. Eu, artista brasileira, acostumada a pensar o gesto, o símbolo, a natureza, me vi diante de um gesto ampliado à dimensão do monumento: oferecer flores. Um ato simples, ancestral, transformado em escultura de quase doze metros de altura.
Koons, conhecido por seu acabamento impecável e pela estética que dialoga com o consumo e com o brilho industrial, aqui cria algo que vai além do espetáculo visual. Há uma delicadeza inesperada. A mão não segura — ela oferece. Não impõe — entrega.
Sob a neve, as tulipas pareciam ainda mais simbólicas. Flores que não murcham. Cores que não se apagam. Um memorial que não é sombrio, mas vibrante. Como se dissesse que a memória também pode ser celebrada com luz.
Ao erguer meus braços sob aquela escultura, senti que participava do gesto. A arte tem esse poder: nos incluir. Não somos apenas espectadores — somos atravessados por ela.
Paris, tantas vezes cenário da história, da beleza e da dor, recebe esse buquê como quem aceita um abraço coletivo. E eu, naquele inverno de 2025, levei comigo a certeza de que, mesmo nos tempos mais frios, ainda há mãos estendidas. E talvez seja essa a função mais urgente da arte: lembrar-nos disso.
