Às vésperas da Primavera, é tempo de Jequitinhonha no Catete
Exposição 'Arte têxtil em Turmalina e Veredinha' começa nesta quinta-feira no CNFCP
Saxofonista, bordadeira, aspirante a engenheira florestal, aos 20 anos a verediense (nascida em Veredinha, no Vale do Jequitinhonha) Monique Sthefany Rodrigues Sobrinho cresceu admirando o balé das mãos ao redor em sua região. Costura, crochê, tricô, bordado são tão presentes quanto as reinações na vida das crianças. Nesta quinta-feira (17), às 15h, Monique se reúne com outras gerações de mulheres do Vale na roda de conversa que o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular, unidade especial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (CNFCP/Iphan), no Catete, promove convidando o público a saber mais sobre o universo em questão.
Pela primeira vez visitando o Rio, Monique encontra o público ao lado de Maria Aparecida das Graças Oliveira, presidente da Associação de Artesãos de Turmalina (Astur) e Ilma Gonçalves de Oliveira, presidente da Associação Comunitária dos Artesãos de Turmalina (Soarte), para falar sobre a exposição Arte têxtil em Turmalina e Veredinha – Jequitinhonha, MG, que será inaugurada no mesmo dia, das 17h às 20h no Museu de Folclore Edison Carneiro. Cabem à historiadora Ana Lima Kallás a pesquisa de campo e o texto do catálogo desta nova mostra do programa Sala do Artista Popular (SAP). A entrada é gratuita.
“Em Veredinha, minha cidade, é comum a gente encontrar as mulheres na porta de casa fazendo crochê. Criança, eu brincava com os toquinhos de linha, até que, mais crescida, pedi minha mãe para me ensinar. Muito difícil. Tricô também não consegui aprender. Até que ela me ensinou a fazer ponto cruz. Na pandemia, comecei a ajudá-la nas encomendas que surgiram. Hoje estou no Rio como representante da Artever, que conta com 21 associadas na minha cidade”, conta. Recentemente, Monique começou a ver uma linha para seguir nos próximos anos. “Gostaria de ser mestre-artesã, uma guardiã dos saberes. Poder contribuir para o crescimento, integrar encontros com mestres da cultura popular e levar adiante essa herança que recebemos”, diz.
Emoldurada por um panorama documental breve, "Arte têxtil em Turmalina e Veredinha – Jequitinhonha, MG" é formada por bordados em peças para decoração, vestuário e diversos outros trabalhos manuais. Marca da região, a arte têxtil atravessa séculos e dicotomias do progresso. A tecelagem, o bordado, a cerâmica e os trabalhos em couro e madeira são definidos como saberes-fazeres desde os idos de 1700.
No texto do catálogo, a pesquisadora Ana Lima Kallás destaca: “O Vale do Jequitinhonha está localizado na porção nordeste de Minas Gerais e abrange também uma pequena parte do sudeste da Bahia, com cerca de 70.315 km². A população local classifica o Jequitinhonha mineiro em Alto, Médio e Baixo. Turmalina e Veredinha estão situadas no Alto Jequitinhonha. Turmalina tem área territorial de 1.153,111 km² e população estimada em 20.769 pessoas (IBGE, 2023). A cidade se expandiu a partir da exploração do ouro às margens do rio Araçuaí, no século 18, acompanhada do plantio de alimentos para os mineradores”.
Veredinha está situada a cerca de 40 km de Turmalina, com área de 631,691 km² e população estimada em 5.240 pessoas. A cidade se formou a partir de um ponto de tropeiros que transportavam mercadorias para venda em outras cidades do entorno. Ali foi construída uma capela a Nosso Senhor do Patrocínio, que ganhou uma estátua do santo vinda da Itália. O distrito foi criado em 1875, ainda subordinado a Minas Novas. Em 1948, Veredinha foi anexada ao município de Turmalina, permanecendo assim até 1995, quando se emancipou (IBGE, 2026). A economia local é similar à de Turmalina, prevalecendo a atividade agrícola e a plantação de eucalipto.
A arte têxtil acompanha a vida da artesã Maria Aparecida das Graças Oliveira, 63 anos, presidente da Astur, que também vem ao Rio pela primeira vez. Cresceu ajudando mãe, avós e tias no ofício.
“Desde cedo cresci com tecidos e bordados ao redor. Primeiro, eu ajudava a preparar o algodão para fazer o fio e depois tecer. Os tecidos mais grossos, minha mãe fazia as iniciais de todos com ponto cruz, ela falava ponto de marca, para identificar os donos de cada item. Ajudar a complementar a renda é uma terapia e me faz bem”, conta.
Em 1992, a Astur foi fundada com incentivo do governo municipal. “Os compradores de outras regiões de Minas vinham comprar nosso trabalho, e surgiu da prefeitura o incentivo para que a atividade artesanal se tornasse uma forma de gerar renda”, completa.
No catálogo da SAP, a pesquisadora Ana Lima Kallás apresenta uma breve linha do tempo desse saber-fazer:
“A arte têxtil guarda uma longa tradição na região. O cultivo do algodão, sua colheita, descaroçamento, cardagem e fiação foram descritos pelos viajantes europeus do século 19 que passaram pelo norte e nordeste de Minas Gerais. Nos escritos de Saint-Hilaire, há referências aos algodoais e à fiação em Minas Novas e em Água Suja, considerada um dos berços da tecelagem rústica.”
Esta não é a primeira vez que o CNFCP expõe a arte têxtil do Vale do Jequitinhonha, como conta Ana Lima Kallás. Em 2000, houve a SAP “Um vale de tramas: a tecelagem do Jequitinhonha”, dedicada à tecelagem da cidade de Berilo. Agora, a pesquisadora entrevistou 40 mulheres para a montagem da exposição que retrata Turmalina e Veredinha. O associativismo forma uma força coletiva de especial significado entre as artesãs. “No sentido de pensarem e agirem coletivamente na compra de insumos, na participação em eventos, na venda, no desenvolvimento de novas coleções, na participação em cursos de capacitação, na busca coletiva por soluções aos desafios colocados”, explica a pesquisadora.
Ao visitar a mostra "Arte têxtil de Turmalina e Veredinha – Jequitinhonha, MG", o público vai poder conhecer de perto (e comprar por valores de R$50 a R$1,5 mil) os bordados característicos de Turmalina e Veredinha, observar suas temáticas, combinação de cores, acabamentos em crochê e observar a revisitação da arte têxtil utilitária com a produção de peças para cama e mesa e vestuário, feitas manualmente em tecidos de algodão com bordados e acabamentos ponto a ponto.
A mobilização de mulheres e a consequente importância da geração de renda do artesanato no Vela do Jequitinhonha é um aspecto ressaltado por Ilma Gonçalves de Oliveira, presidente da Associação Comunitária dos Artesãos de Turmalina (Soarte).
“Percebo que aqui, não apenas no nosso município, Turmalina, mas no Vale do Jequitinhonha como um todo, o artesanato representa uma renda necessária. Garante o sustento de famílias. Entre as associadas da Soarte há mulheres que garantem o custeio da casa com o bordado. Há as associadas diretas e as prestadoras de serviço que a gente chama de associadas indiretas. Todas fomentam a estrutura da cidade, faz o capital girar e fomenta o comércio”, analisa.
Filha e neta de artesãs, Ilma coordena o ponto de venda. “Hoje em dia, no meu caso, o artesanato não é a principal fonte de recursos. Mas uma atividade secundária, porém, uma renda bem agregada, que chega e ajusta nossa vida em família. O escoamento das nossas peças não é constante, fixo, porque o ponto de venda movimenta em épocas específicas que a cidade recebe muitos visitantes. Cada artesã tem o seu próprio nicho de comércio, tem redes sociais, tem familiares que moram em outras grandes cidades e comercializam, há também a possibilidade de enviar via Correios”, afirma. Sempre há uma linha em movimento.
Serviço: Exposição 218º da Sala do Artista Popular: "Arte têxtil de Turmalina e Veredinha – Jequitinhonha, MG". Abertura dia 17 de setembro, das 17h às 20h. Encerramento: 29 de novembro.
Programação do dia de abertura:
Roda de conversa, às 15h, com a participação das representantes das associações à frente da criação e gestão do trabalho de arte popular: Maria Aparecida das Graças Oliveira, da Astur, Ilma Gonçalves de Oliveira, presidente da Soarte, e Monique Sthefany Rodrigues Sobrinho, da Artever.
Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular | Museu de Folclore Edison Carneiro – Rua do Catete, 179. Catete – RJ. Tel. 21 3032.6052
Dias e horários de visitação: Terça a sexta-feira, das 10h às 18h. Sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h. Entrada franca.
Realização: Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (CNFCP/Iphan) | Associação Cultural de Amigos do Museu do Folclore Edison Carneiro (Acamufec).