Livro reúne grandes autores de novelas para discutir bastidores e transformações da teledramaturgia brasileira

Obra de Tatiana Siciliano e Francisco Malta traz entrevistas com Glória Perez, Silvio de Abreu, Lauro César Muniz, Ricardo Linhares, Lícia Manzo e outros nomes

Por CADERNO B

Os autores Tatiana Siciliano e Francisco Malta

O livro "Autoria e gênero na telenovela brasileira", dos pesquisadores Tatiana Siciliano e Francisco Malta, será lançado nesta segunda-feira (31), na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, no Rio de Janeiro. A obra reúne entrevistas com nove autoras e autores de diferentes gerações da teledramaturgia: Ana Maria Moretzsohn, Lícia Manzo, Rosane Svartman, Solange Castro Neves, Lauro César Muniz, Alcides Nogueira, Silvio de Abreu, Ricardo Linhares e Glória Perez. A partir das trajetórias e experiências desses profissionais, os pesquisadores discutem processos de criação, relação com a audiência, transformações na produção audiovisual e a presença das mulheres nos espaços de autoria e decisão.

A obra é resultado do projeto "As trabalhadoras do audiovisual fluminense: trajetória de mulheres por trás das câmeras na TV e no streaming", financiado pela Faperj. O primeiro volume combina entrevistas realizadas especialmente para a pesquisa com depoimentos anteriores revistos e atualizados.

Mulheres ainda são minoria na autoria

A questão de gênero surge no livro desde sua origem. Embora as mulheres tenham participação histórica na televisão brasileira, a presença feminina entre autores de telenovelas e em posições de decisão ainda é reduzida, observa Ana Maria Moretzsohn em seu depoimento.

A trajetória de Glória Perez oferece outro ponto de reflexão. A autora passou 17 anos escrevendo sozinha para o horário nobre, experiência que, para os pesquisadores, evidencia ao mesmo tempo a força de sua trajetória autoral e as barreiras encontradas pelas mulheres para ocupar esses espaços.

Streaming muda também os bastidores

Uma das transformações examinadas no livro acontece longe das telas. Segundo os pesquisadores, a expansão do streaming trouxe maior previsibilidade para a produção audiovisual, com mudanças no planejamento, no ritmo de trabalho e na organização das salas de roteiro.

Se tradicionalmente a figura do autor ocupava uma posição bastante central no processo de criação da telenovela, os novos modelos de produção tornam mais explícita e estruturada a criação coletiva, com maior participação de roteiristas, produtores e outros profissionais. Franciscano Malta ressalta que há também uma orientação maior para custos, velocidade e previsibilidade.

Para os autores, a capacidade de transformação sempre fez parte da história da telenovela. Mas a emoção continua sendo um elemento essencial do gênero.

“A telenovela reafirma sua origem no folhetim e no melodrama, gêneros que têm a emoção como elemento central. É preciso, portanto, assumir essa característica sem pudor, sem medo de exagerar e sem vergonha de colocar os sentimentos em primeiro plano. A novela pode se transformar, experimentar novos formatos e incorporar outras linguagens, mas não precisa abrir mão de sua identidade para se aproximar do modelo das séries.”, explica Tatiana Siciliano.

Da criação à reação do público
As entrevistas também recuperam episódios em que a novela tomou caminhos diferentes dos inicialmente imaginados por seus autores. Ricardo Linhares conta que Bebel, interpretada por Camila Pitanga em Paraíso Tropical, havia sido pensada como uma personagem coadjuvante e que sua relação com Olavo, vivido por Wagner Moura, deveria durar apenas uma noite. A resposta dos espectadores ampliou o espaço dos dois na trama.

Glória Perez relata situação semelhante em Caminho das Índias. O par inicialmente previsto para Maya, personagem de Juliana Paes, era Bahuan, interpretado por Márcio Garcia. A recepção do público contribuiu para uma mudança de rumo e para a formação do casal Maya e Raj, vivido por Rodrigo Lombardi.

Além das relações com a audiência, os depoimentos percorrem diferentes maneiras de criar ficção.

Os autores
Tatiana Siciliano é professora e pesquisadora da PUC-Rio. Doutora em Antropologia pelo Museu Nacional/UFRJ e pós-doutora em Sociologia pelo IFCS/UFRJ, coordena o grupo de pesquisa Narrativas & Consumo, desenvolvendo estudos sobre mídia, cultura, consumo e audiovisual.

Francisco Malta é roteirista, pesquisador e e pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUC-Rio. Doutor em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), integra o grupo de pesquisa Narrativas & Consumo, dedicando-se a pesquisas sobre televisão, narrativa e audiovisual.

Serviço
Lançamento de Autoria e gênero na telenovela brasileira
Autores: Tatiana Siciliano e Francisco Malta
Data: 31 de agosto de 2026
Horário: 18h
Local: Livraria da Travessa – Shopping Leblon
Endereço: Av. Afrânio de Melo Franco, 290 - Loja 205-A - Leblon, Rio de Janeiro - RJ.