Sexta-feira 13 com tributo ao notável Edison Carneiro no Catete
Projeto NegroMuro assina painel dedicado ao etnólogo, inaugurado no terraço do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular
O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan) abriu as portas, nesta sexta (13), para fazer história. O museu no Catete assinou um Protocolo de Intenções o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), com vistas à futura celebração de Termo de Cessão de Uso de uma área situada nos jardins do Museu da República, destinada à ampliação da reserva técnica do Museu de Folclore Edison Carneiro. Dos 58 anos de existência do Museu, já são quase três décadas aguardando um espaço mais amplo para abrigar o maior acervo de cultura popular do país, formado por mais de 20 mil itens. Considerado único, o conjunto é referência para pesquisa das manifestações culturais populares e tradicionais brasileiras.
O momento reafirma a importância da vida, obra e legado do jornalista, etnólogo, comunista e pioneiro no estudo de religiões de matriz africana Edison Carneiro (1912-1972), intelectual baiano, amigo de Jorge Amado, fundamental para iluminar os saberes da cultura popular do Brasil. A partir de agora, todas as gerações podem conhecer a figura deste mestre com a inauguração de um mural em sua homenagem.
Realizado pelo Projeto NegroMuro, o painel imprime o homenageado com as vestimentas de Zé Pelintra/Exu. “Homenagear Edison Carneiro no museu que leva seu nome é cumprir um dos principais objetivos do projeto NegroMuro, que é relacionar a memória de nossos personagens negros históricos a um território que dialogue com sua trajetória”, afirma Pedro Rajão, do NegroMuro.
A nova reserva técnica pode ser construída margeando o prédio do CNFCP, no jardim do Museu da República. A futura cessão de uso de área representa um gesto concreto de articulação entre instituições culturais federais, como analisa a presidenta do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), Fernanda Castro, destacando a importância da cooperação institucional para a realização da iniciativa. “O Museu da República, órgão federal vinculado ao Ibram, passa a contribuir para o fortalecimento das condições de salvaguarda de um dos mais relevantes acervos de cultura popular do país. A iniciativa amplia as condições de preservação desse acervo e reforça o compromisso do Estado brasileiro com a proteção da memória, da identidade e da cultura de seu povo.”
O presidente do Iphan, Leandro Grass, também ressalta a relevância da nova estrutura para o futuro do acervo. Para ele, a nova reserva técnica garantirá melhores condições de conservação, pesquisa e difusão dos acervos do Museu de Folclore. “A iniciativa reafirma o compromisso do Iphan com a proteção das expressões culturais que formam a identidade do nosso povo. Poderemos assegurar não apenas a integridade física dos bens culturais, mas principalmente a continuidade das memórias, saberes e das tradições que mantêm viva a nossa diversidade cultural”.
Trata-se de uma demanda histórica, conforme pontua Rafael Barros Gomes, diretor do CNFCP. “O Museu de Folclore possui hoje a maior reserva de cultura popular do país, com 20 mil itens. São objetos expressivos e importantes, não apenas das artes populares, mas que contextualizam a diversidade da cultura popular brasileira. Com indumentárias, objetos que remetem a ritos, formas de expressão, modos de fazer”, ressalta. Ele destaca que há cerca de 30 anos o acervo ocupa um espaço já insuficiente para sua dimensão. “Trata-se de um acervo que cresce mês a mês, ano a ano, e que não recebe as condições ideais de conservação”.
Compromisso histórico
A perspectiva de cessão de uso de uma faixa de terreno situada nos jardins do Museu da República, entre áreas já ocupadas pelo CNFCP, representa, nas palavras do diretor, “um ganho importante para essa demanda histórica, com reposicionamento do Museu de Folclore e desse acervo fundamental, patrimônio de todo o povo brasileiro”. Rafael também ressalta o papel do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) e do Museu da República na parceria institucional: “O gesto do Ibram e do Museu da República demonstra um compromisso histórico do instituto com o campo museológico e o reconhecimento à importância das culturas populares e desse acervo para todo o país”.
A chefe do Museu de Folclore Edison Carneiro, Elizabeth Pougy, chama atenção para os desafios técnicos da preservação. “Esse acervo, cujo número supera os 20 mil itens, é composto por objetos dos mais diversos materiais, como barro, madeira, fibra trançada, fantasias em variados materiais, instrumentos musicais etc.” Segundo ela, atualmente apenas uma pequena parcela da coleção está acessível ao público por meio da exposição de longa duração Os objetos e suas narrativas. Estão na atual reserva técnica 90% dos itens.
Por se tratar de um acervo vivo e em constante crescimento — seja por meio das pesquisas e programas do CNFCP, seja por doações de particulares e instituições —, a preocupação com a guarda adequada é permanente. “Uma reserva técnica deve ser um espaço adequado, física e climaticamente, para a preservação dessas diferentes tipologias de objetos, muitas vezes feitos de materiais frágeis e perecíveis, que necessitam de muitos cuidados”, explica Elizabeth. O espaço atual, criado em 1980 e ampliado em 1987, encontra-se saturado, sem condições mínimas para as ações de preservação. A nova reserva permitirá não apenas melhores condições de conservação, mas também o atendimento a artistas, detentores de saberes, pesquisadores e estudantes.
Projeto NegroMuro: sexta obra em um museu
O Projeto NegroMuro. desde 2018. atua no mapeamento da memória negra através da arte urbana. Personagens históricos negros são pintados em muros públicos pela cidade pelos seus idealizadores, o muralista Cazé e o produtor e pesquisador Pedro Rajão.
Rajão conta que, ao longo de todo o projeto, a imersão da equipe no acervo e nas pesquisas do CNFCP para a criação da obra foi algo único. “Tivemos a rica oportunidade de nos aprofundar no próprio acervo do Museu, como nas pesquisas que fundamentaram a homenagem a Edison Carneiro, um homem de contribuições diversas em diferentes campos da intelectualidade brasileira”.
Nascido das ruas, o NegroMuro assina agora sua sexta obra em um museu. “Este, no caso, é o da cultura popular: uma grande afirmação de que nosso trabalho é popular e merece estar exposto também em espaços de memória institucionais”, afirma Rajão. E conclui: “Salve Edison Carneiro! Viva o CNFCP!”