Trump exigiu 21 medidas do Brasil para aliviar o tarifaço
Documentos revelam que a oferta americana foi rejeitada pelo governo Lula por misturar comércio, política e pressões sobre setores estratégicos
Proposta dos Estados Unidos misturou comércio e política
O governo Donald Trump apresentou ao Brasil uma oferta para aliviar o tarifaço de 50% em troca de 21 compromissos. Entre eles, havia exigências comerciais, regulatórias e também uma demanda explícita sobre as condições da eleição presidencial de 2026. A resposta brasileira foi negativa, e o pacote foi classificado como inaceitável por integrantes do governo Lula.
Na primeira versão, enviada em 16 de outubro, os americanos pediam que o Brasil impedisse restrições à participação de “dissidentes políticos” na disputa, garantisse uma eleição “justa e livre” e evitasse punições a empresas e cidadãos dos EUA por conteúdo protegido pela Primeira Emenda, informa o Estadão. O texto também tratava de sanções financeiras, liberdade de expressão e regras para plataformas digitais.
Exigências atingiam setores estratégicos da economia
Além da pauta política, a proposta incluía mudanças profundas em áreas sensíveis da relação comercial. Os EUA queriam cortes de tarifas sobre etanol, produtos químicos, máquinas, veículos, bens de alta tecnologia e outros segmentos, além de mais abertura para produtos remanufaturados, serviços digitais e bens industriais americanos.
Outro foco era o setor de minerais críticos. O documento previa acesso antecipado às informações sobre vendas de ativos, participação de empresas americanas em processos de licitação e limitações a investimentos de entidades estrangeiras consideradas preocupantes. Também havia pedidos relacionados a aviação, medicamentos, certificados da FDA, trabalho forçado, pesca ilegal, desmatamento e até comércio de soja e aço.
Segunda proposta retirou política doméstica, mas manteve pressão
Em 9 de janeiro, os Estados Unidos enviaram uma nova versão, mais curta, com sete setores e 14 tópicos. Dessa vez, os pontos de política interna desapareceram, mas a exigência de eliminação de tarifas em vários produtos permaneceu, assim como pedidos ligados a comércio digital, indústria, tecnologia segura, minerais críticos e trabalho forçado.
O governo brasileiro voltou a rejeitar a proposta. Mesmo assim, as tratativas prosseguiram ao longo de 2025 e 2026, com reuniões reservadas, telefonemas e novas rodadas de negociação. O processo não impediu a escalada tarifária, que levou a novas sobretaxas e a investigações americanas com base na Seção 301.
Negociações seguiram até 2026, com pressão e exceções parciais
Ao longo do período, houve conversas entre Lula e Trump, encontros entre chanceleres e algumas exceções às tarifas, especialmente para produtos agrícolas e itens como café, suco de laranja e carne bovina. Ainda assim, os EUA continuaram usando o tema comercial como instrumento de pressão política e econômica, inclusive com novas investigações e medidas contra o Brasil.
A disputa terminou se convertendo em uma longa crise bilateral, com impacto direto sobre exportações brasileiras e sobre a relação entre os dois governos. Mesmo com avanços pontuais, o acordo amplo nunca saiu do papel e as exigências americanas seguiram como ponto central das negociações. (reportagem ampliada com informações da Agência Estado)