Novo relatório da Coaf mostra que Cid movimentou R$ 6,7 milhões em 16 meses
Valor é atípico porque vai muito além do salário bruto mensal do tenente-coronel, de R$ 26,2 mil, o que daria cerca de R$ 340 mil por ano
No fim de julho, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou uma movimentação 'atípica' de R$ 3,7 milhões nas contas bancárias do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL), entre julho de 2022 e maio de 2023.
O valor chamou atenção porque vai muito além do salário bruto mensal de Cid, de R$ 26,2 mil, o que daria cerca de R$ 340 mil por ano, levando em conta o 13º. Se já causava estranheza a movimentação quase dez vezes superior a seus ganhos, um documento divulgado nesta terça-feira (15) mostra que o militar movimentou ainda mais dinheiro se considerar janeiro do ano passado até maio deste ano.
Segundo Relatório de Inteligência Financeira (RIF), obtido com exclusividade pelo portal de notícias O Cafezinho, o braço direito do ex-presidente movimentou precisamente R$ 6,72 milhões, de 1 de janeiro de 2022 a 6 de maio de 2023.
O Coaf investigou três períodos, de acordo com a reportagem:
- 1º de janeiro a 25 de julho de 2022 - R$ 2,96 milhões;
- 26 de julho até 25 de janeiro de 2023 - R$ 3,25 milhões;
- 26 de janeiro a 6 de maio de 2023 - 501,4
Somados, os valores chegam aos quase 7 milhões de reais.
O jornalista Miguel do Rosário teve acesso a um RIF que traz suspeitas de crimes financeiros envolvendo vários personagens ligados a Mauro Cid e às investigações da PF e da CPMI do Golpe. Eis os principais:
Osmar Crivelatti, primeiro-tenente do Exército. Crivelatti está sendo investigado pela Polícia Federal, depois que se descobriu que ele foi designado pelo tenente-coronel Cid para coletar um relógio da marca Chopard que foi a leilão, sem êxito, em Nova York. Fazia parte da equipe nomeada por Bolsonaro após sua saída da presidência. Crivelatti movimentou R$ 242 mil em 7 meses (janeiro a julho de 2022).
Luis Marcos dos Reis, segundo-sargento do Exército, braço direito de Mauro Cid na Ajudância de Ordens da Presidência da República durante a maior parte do governo Bolsonaro. Nos últimos meses da gestão Bolsonaro, foi transferido para o ministério do Turismo. Reis movimentou R$ 3,34 milhões de fevereiro de 2022 a maio de 2023. O Coaf considera a movimentação incompatível com a sua renda, que era de R$ 13 mil/mês como militar, mais R$ 10 mil como servidor público federal. Reis é suspeito de ter sido um dos operadores das fraudes em cartões de vacina, sempre à mando de Mauro Cid.
Mauro Cid, tenente-coronel do Exército, e ex-ajudante de Ordens da Presidência da República. Investigações apontam que Cid era o "faz-tudo" dos crimes. Organizava a distribuição de rachadinhas para a primeira-dama, Michelle Bolsonaro e fazia depósitos nas contas de amigas e parentes de Michelle. Foi o chefe do esquema de fraude de vacinas. Coordenou a organização criminosa especializada em vender joias e objetos de luxo recebidos pelo presidente Jair Bolsonaro, presentes de governos e que deviam portanto ser incorporados ao patrimônio público. Há conversas registradas em que Mauro Cid pede a seu pai, o general Cid (que ele envolveu nos crimes), que repasse 25 mil dólares, parte de uma venda, ao presidente Jair Bolsonaro. Esse documento reforça a suspeita da PF de que o chefe e beneficiário principal da quadrilha era o próprio Jair Bolsonaro.