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O que fica para as crianças

Em tempos de extremos, uma lição pode estar na conversa

Por CÂNDIDA TERRA

Uma criança de oito anos chega à escola e repete, com a verdade de quem descobriu uma verdade, um rótulo que pegou em algum lugar para se referir a um colega.

Não sabe exatamente o que a palavra significa. Sabe apenas que ela serve para separar, para colocar o outro do lado de lá. A cena, que já não surpreende tantos pais e professores, diz muito menos sobre uma criança do que sobre o tempo em que ela está crescendo.

Vivemos um momento de extremos. Discordar, que deveria ser um exercício natural de convivência, muitas vezes se transforma em ruptura.

Famílias deixaram de se reunir, grupos de mensagens se desfizeram, amizades antigas não resistiram a uma diferença de opinião. E as crianças assistem a tudo isso, com uma atenção que costumamos subestimar.

Há um componente que torna este momento singular. Parte dessa tensão é alimentada pelo próprio desenho das plataformas digitais, cujos sistemas de recomendação tendem a premiar o que provoca indignação, o que é extremo, o que confirma aquilo em que já formulamos.

O ECA Digital representa um avanço importante ao considerar que esse ambiente não é neutro e ao considerar as plataformas que devem ser concretas de proteção de crianças e adolescentes. É uma lei cumprindo o seu papel. Mas nenhuma norma substitui o que é construído dentro de casa.

Seria fácil, porém, olhar para este período apenas pelo que ele tem de difícil. Todos os momentos, mesmo os mais tensos, carregam um ensinamento, e, talvez, esse também tenha algo valioso a oferecer às nossas crianças.

Elas vendem pessoas se importando com o país, discutindo o futuro, ocupando espaços, defendendo aquilo em que acreditam. Estamos aprendendo, ainda que de forma desordenada, que a vida em sociedade não é indiferente às nossas escolhas, e que se mobilizar faz parte de ser cidadão. Essa é uma lição preciosa, desde que venha acompanhado de outra igualmente importante: a de que é possível defender convicções sem desumanizar quem pensa diferente.

O que vai definir quais esses aprendizados prevalecentes não são as redes sociais. Somos nós. Se deixarmos que nossos filhos compreendam o mundo apenas pelo que chega a eles através de uma tela, eles conhecerão uma versão recortada, acelerada e frequentemente distorcida da realidade.

Se, ao contrário, tivermos presentes para contextualizar, explicar e ouvir, este momento pode se transformar em uma oportunidade rara de formação.

Talvez seja, mais uma vez, a hora de deixar o celular do lado e conversar.

Explicar às crianças por que as pessoas se mobilizam, por que a participação é importante, por que divergir faz parte da democracia. E, ao mesmo tempo, ensiná-las a olhar com espírito crítico para tudo o que recebe pelas redes: perguntar quem está dizendo, com que interesse, se aquilo foi verificado, o que pode estar faltando na história. Ensinar que mudar de ideia não é derrota, que respeito não depende de concordância, e que por trás de cada perfil existe uma pessoa.

Essa tarefa é compartilhada. A escola tem papel essencial para oferecer espaços de debate modernos e de pensamento crítico.

As famílias são o primeiro modelo de convivência que uma criança conhece. E cada adulto, nas redes e fora delas, é hoje um professor dessa geração, quase sempre sem perceber.

As crianças estão olhando. Que o que elas levem esse tempo não seja apenas uma lembrança de um país dividido, mas a experiência de terem sido ouvidas, de terem aprendido a pensar por conta própria e de terem visto, em casa, que é possível acreditar em algo e, ainda assim, conversar com quem acredita no contrário.

Cândida Terra é advogada especializada em Proteção de Dados e Privacidade, sócia do Terra Rocha Advogados.