Pixuleco e boneco eleitoral: Mendonça foi quem buscou a humilhação sofrida no STF
...
Analisar a crise em que o Supremo Tribunal Federal se meteu após os movimentos desastrados de André Mendonça não é um exercício de torcida política, mas de diagnóstico institucional. O que se viu na sessão que chocou o país não foi um mero entrevero regimental, tampouco uma divergência hermenêutica de alto nível teórico. Foi a consumação de um desgaste anunciado: Mendonça foi quem buscou a humilhação sofrida no STF.
Com um comportamento que, desde sua indicação, revela uma inadequação flagrante ao rito e à liturgia do cargo, o ministro apresentou uma atuação marcada por uma submissão constrangedora aos interesses da família Bolsonaro. A manobra perpetrada às vésperas do processo eleitoral teve um objetivo tão simplório quanto límpido: instrumentalizar o peso da Corte para atacar Alexandre de Moraes, buscando criar um desgaste artificial baseado em supostas conexões de relações com o presidente Lula, e, com isso, empurrar uma boia salva-vidas à candidatura de Flávio Bolsonaro.
O erro de cálculo, contudo, foi absoluto. Mendonça agiu de forma liminarmente ilegal, arrombou os limites do regimento interno do STF e optou por uma seletividade grosseira. Ao mirar de maneira obsessiva um único colega e tentar blindar ou poupar outros pares, como Kassio Nunes Marques, Dias Toffoli e Luiz Fux, o ex-advogado-geral da União atropelou a prudência processual. O resultado foi um tiro no pé de proporções históricas, uma conduta kamikaze que conseguiu o feito de desagradar inclusive os setores mais conservadores e a própria ala aliada, que viram o STF ser tragado para o olho do furacão.
A jogada foi tão tosca na forma e infantil na concepção que acabou trazendo para a vitrine os podres e as vulnerabilidades de quase todo o colegiado. Desenterraram-se os fantasmas de Dias Toffoli, a quem Mendonça parecia proteger há meses, expôs-se o desconforto velado de Fux e resgatou-se o nome de Kassio no centro do escândalo do banco Master, arrastando para a superfície até episódios da vida privada do magistrado que envolvem escândalos de foro íntimo, sobre supostas situações envolvendo uma garota de programa. A evasão de uns e a participação tímida de outros na sessão revelaram o tamanho do estrago: todos se sentiram atingidos por uma manobra desprovida de estratégia que acabou, inevitavelmente, expondo o próprio Mendonça.
Na plenária, o espetáculo foi avassalador. Diante da investida contra a Polícia Federal e contra a própria estrutura da Corte, o troco veio com peso devastador. Quando o ministro Alexandre de Moraes interpelou a mesa com a pergunta fatal “Quem tem medo da Polícia Federal?”, Mendonça tentou esboçar uma reação atabalhoada, atalhando com um vacilante “Não é questão de medo, não”. A resposta de Moraes veio como uma lâmina: “Eu não estou perguntando a vossa excelência”.
A partir dali, o que se assistiu foi o desmantelamento ao vivo de uma autoridade judicial. Com uma oratória capenga e visível lentidão de raciocínio, Mendonça postou-se como um adolescente apanhado em erro, tentando rebater em tom de birra as broncas dos adultos da Casa. Gilmar Mendes, no papel de decano intransigente, não poupou adjetivos nem conceitos para qualificar a aventura.
“Quem é o vazador-geral da República? Interessante que nos nossos gabinetes não vaza nada”, disparou Gilmar contra Mendonça, antes de ir ao núcleo da intenção política do colega: “Evidente que se trata de um pixuleco, de um boneco eleitoral”.
Gilmar expôs a gravidade do viés seletivo que guiou a canetada de Mendonça, denunciando o perigo de aparelhar a jurisdição a favor de um grupo politico: “Não é admissível que de um conjunto de fatos se destaque em alguns para exame e se relegue em outros ao silêncio, um jogo de Omertà, de máfia, como se a gravidade na notícia variasse conforme o nome do magistrado a que se refere ou conforme o tribunal que ele integra”, acusou enfurecido, arrematando que “as pessoas estão submetidas, submissas, entregues a esse tipo de vilipêndio”.
A tentativa de Mendonça de atropelar instituições de Estado e afastar dirigentes para criar um clima de comoção eleitoral foi dissecada por Gilmar com ironia impiedosa: “Qualquer cidadão que tenha um mínimo de noção do que significa a Polícia Federal, que é um órgão armado, submetido à hierarquia, não faria afastamento de um diretor-geral da Polícia… É como afastar o diretor-presidente da Nasa. Ou tirar o comandante do Exército. Não se faz isso. Um vexame… O sujeito tem que se algemar antes de fazer esse tipo de coisa. Quando ele tiver a tentação, tem que pedir que Deus interceda. E não faça”.
O quadro final é de uma contaminação severa para a própria instituição. Independentemente dos desdobramentos regimentais ou das medidas que venham a ser tomadas nos próximos meses, André Mendonça produziu uma ferida incurável na sua própria biografia e no seu trânsito interno. Tornou-se um pária no plenário.
Ficou exposto para todo o país como uma figura desprovida das condições jurídicas, intelectuais e éticas fundamentais para ocupar a cadeira que ocupa. Ao agir com o desespero de um militante e com a ingenuidade de quem desconhece o peso e a dinâmica da Praça dos Três Poderes, Mendonça tentou criar um “boneco eleitoral”, mas acabou convertendo a si mesmo na imagem acabada da pequenez institucional.
Este é um artigo de opinião.
Artigos de opinião nem sempre refletem a o pensamento da equipe da Redação do JORNAL DO BRASIL.