Renata e Tralli trataram Lula como bandido e mesmo assim ele deu baile
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A entrevista de Lula no Jornal Nacional foi mais uma demonstração de como a emissora pretende atuar na disputa política que já está em curso. Renata Vasconcellos e César Tralli passaram mais de 20 minutos questionando o presidente sobre corrupção. E boa parte desse tempo foi dedicada ao chamado caso Lulinha.
Não há problema em perguntar sobre corrupção. Jornalistas devem perguntar. O problema é transformar uma entrevista com o presidente da República praticamente em um interrogatório sobre um único assunto e deixar de lado questões fundamentais para a vida dos brasileiros.
Lula chegou a dizer que parecia estar em um tribunal.
E eu acho que essa frase resume bem o que aconteceu.
A Globo afirmou, durante a entrevista, ter um jornalismo de “altíssima qualidade”. Tralli chegou a mencionar que a emissora já havia se corrigido em relação a erros cometidos no passado.
Mas faltou um detalhe importante nessa história.
A Globo apoiou a ditadura militar e só décadas depois reconheceu publicamente esse erro e pediu desculpas. Só que, quando o assunto é Lula, não houve o mesmo tipo de acerto de contas com a cobertura que a emissora fez durante a Lava Jato.
Não estou dizendo que Lula não deve ser questionado. Deve.
O que estou dizendo é que jornalismo precisa trabalhar com os mesmos critérios para todos.
Lula foi submetido a uma devassa judicial e política. Ficou 580 dias preso. Sua vida foi revirada, suas contas foram investigadas e a Lava Jato produziu uma narrativa que durante anos dominou o debate público brasileiro.
Depois, as condenações foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar os casos e declarou a parcialidade de Sergio Moro.
Isso deveria servir, no mínimo, para que jornalistas tivessem mais cuidado com acusações apresentadas como fatos consumados.
E aí chegamos ao contraste com o caso do chamado Dark Horse.
Flávio Bolsonaro foi questionado sobre o dinheiro recebido de Daniel Vorcaro e sobre a promessa de apresentar um relatório detalhando os gastos relacionados ao filme. Passados 100 dias, o relatório não apareceu.
Ora, se existe uma suspeita envolvendo dinheiro recebido de Vorcaro, que se investigue. Se existe contrato, que seja analisado. Se há dúvidas sobre a origem e a destinação dos recursos, que sejam esclarecidas.
Não dá para exigir transparência de um lado e considerar assunto encerrado quando a pergunta chega ao outro.
Mas o que mais me incomodou na entrevista de Lula foi aquilo que não foi perguntado.
Lula poderia ter falado sobre educação. Falou.
Poderia ter falado sobre reindustrialização. Falou.
Poderia ter falado sobre alta tecnologia e sobre a utilização das terras raras como uma janela de oportunidade para o Brasil. Falou.
Mas não conseguiu discutir saúde, a escala 6×1, cultura e uma série de outros temas importantes porque simplesmente não foi perguntado sobre eles.
E isso não é um detalhe.
Uma entrevista presidencial também é uma oportunidade para o eleitor conhecer as propostas de quem pretende governar o país. Quando o tempo é consumido quase integralmente por acusações, o debate sobre projeto de Brasil desaparece.
É exatamente aí que eu vejo o problema.
A impressão que ficou é que o objetivo principal era desgastar Lula, e não permitir que ele apresentasse o que pretende fazer caso continue no Palácio do Planalto.
E, mesmo assim, ele deu baile.
Porque, apesar da tentativa de conduzir a entrevista para o terreno das acusações, Lula conseguiu falar de política pública, desenvolvimento econômico e dos desafios que o Brasil terá pela frente.
No fim, a diferença de tratamento ficou evidente.
Com Renan Santos, foram “tchutchucas”. Com Lula, foram “tigrão”.
E é bom que a gente preste atenção nisso, porque a cobertura eleitoral está apenas começando.
O que está em disputa não é apenas a eleição. Também está em disputa a narrativa sobre quais assuntos serão colocados no centro do debate e quais serão empurrados para fora dele.
Se a Globo quiser fazer jornalismo de “altíssima qualidade”, como afirmou na entrevista, precisa fazer as mesmas perguntas para todos.
Porque o eleitor não precisa de tribunal.
Precisa de informação para decidir.
Este é um artigo de opinião. Artigos de opinião nem sempre refletem o pensamento da equipe de editores do JORNAL DO BRASIL.