A Copa da Inovação: o que a Espanha de De la Fuente ensina às indústrias brasileiras
Escrevo para um veículo que acompanhou a vida da minha família, que chegava impresso na porta da minha casa todas as manhãs na Rua Cinco de Julho em Copacabana. Na Rádio JB, Música e informação que também cresci ouvindo, um hábito que mantenho até hoje. Estar aqui é, de certa forma, um reencontro com a minha própria história.
E para começar, proponho olharmos para o evento que parou o mundo nas últimas semanas a Copa do Mundo de 2026 e me permito traçar um paralelo da maior competição futebolística do planeta para falar da realidade empresarial e em especial da Indústria Brasileira.
Vejamos o que a Espanha de Luis de la Fuente nos mostrou. O treinador espanhol investiu 13 anos formando uma geração inteira. Ele introduziu a juventude de maneira permanente e gradual, substituindo sem solavancos os ídolos do passado. Para quem não sabe, Luis foi treinador das categorias de base da “la roja.
No mundo corporativo, a lógica é a mesma. Empresas de excelência introduzem inovação continuamente para substituir, no tempo certo, os produtos que hoje dão certo. Lucro trimestral sem inovação é como depender apenas de um craque veterano: bonito no placar de hoje, insuficiente para a próxima Copa.
Foi com essa inquietação que criamos na Grownt o Indicador de Avanço Financeiro e Tecnológico (IAFT), uma espécie de ranking FIFA das indústrias brasileiras, divulgado em primeira mão e com exclusividade pelo Valor Econômico no último dia 17 de julho. Mas em vez de medir gols, ele mede a capacidade de gerar riqueza, a inteligência na gestão de dívidas e, o grande diferencial, a ambição de uma empresa em inventar o próprio futuro.
Abaixo, apresentamos o Top 10 do ranking, detalhando a nota final, o perfil e os principais indicadores que garantiram a posição de cada empresa na elite da indústria nacional:
As regras do jogo
O IAFT funciona como uma nota de 0 a 100% dividida em três grandes blocos. O primeiro terço (33,33%) avalia a Geração de Riqueza, ou seja, quanto da receita se converte em caixa real, descontadas as maquiagens contábeis. O segundo terço (33,33%) olha para a Tesouraria, a habilidade da empresa em captar dívida barata, gerar rendimentos financeiros e proteger resultados com instrumentos como swap (uma espécie de seguro contra oscilações de câmbio e juros).
O terceiro terço (33,33%), e aqui está o diferencial, mede o Engajamento com Inovação: quantas patentes a empresa depositou, quantos softwares registrou, quantos desenhos industriais protegeu, se captou recursos em linhas de fomento temáticas de fronteira tecnológica como FINEP e BNDES-Inovação, e se utilizou os incentivos fiscais da Lei do Bem (um mecanismo que permite abater do imposto de renda os gastos com pesquisa e desenvolvimento).
Pense assim: o primeiro terço (geração de riqueza) é o ataque, a capacidade de fazer gols. O segundo (destreza de tesouraria) é a defesa, a solidez para não tomar goleada. O terceiro (Inovação) é a categoria de base, o investimento em jovens talentos, que garante que a seleção continuará competitiva daqui a dez anos.
O placar das 53 indústrias da B3
Aplicamos o IAFT em 53 indústrias com ações negociadas na B3 (a bolsa de valores brasileira) no primeiro trimestre de 2026. Os resultados revelam um campeonato de contrastes.
No total, identificamos 928 eventos de inovação nessa amostra, cada um representando um movimento concreto de proteção intelectual ou captação de recursos para P&D (Pesquisa e Desenvolvimento):
Em dinheiro, essas empresas captaram R$ 4,54 bilhões em financiamentos públicos voltados à inovação: R$ 2,71 bilhões via FINEP e R$ 1,83 bilhão via BNDES-Inovação.
O dado que mais chama atenção? Apenas 14 patentes em 53 empresas. Marcas são abundantes, mas patentes, que representam a inovação dura, a invenção que muda o jogo, são raríssimas. É como ter 53 seleções inscritas na Copa, mas apenas 14 jogadores em todo o torneio com capacidade real de decidir uma final.
As campeãs: quem levanta a taça
Apenas duas empresas atingiram o grau máximo, o Perfil Diamante (nota acima de 90%): Grendene (93,96%) e Ambev (91,13%).
A Grendene é a Espanha deste campeonato. Jovem no sentido estratégico, agressiva na proteção de suas criações (102 desenhos industriais registrados, mais do que qualquer outra empresa da amostra), com caminho livre para se consolidar no topo. Seu investimento em inovação garantiu o título logo ali, provando que o trabalho de base recompensa.
A Ambev é a nossa estrela consolidada. Uma verdadeira "vaca leiteira" em resultados, que lidera o mercado, mas que também serve ao jogo coletivo. Ela combina maturidade operacional com um portfólio robusto e uma geração de riqueza que sustenta o time inteiro.
Logo atrás, no Perfil Vanguarda (80% a 89%), aparecem CBA, M. Dias Branco, WEG, Suzano e Schulz. São as seleções consistentes, que talvez não ganhem a Copa este ano, mas estarão nas semifinais da próxima.
O que dizem as empresas citadas
A reportagem de Nelson Rocco no Valor Econômico não apenas apresentou os números, mas também ouviu os executivos das empresas que lideram esse movimento. A Ambev, segunda colocada no IAFT, investiu R$ 10 bilhões em inovação nos últimos três anos. Gabriela Gallo, diretora de inovações da cervejaria, destacou a importância estratégica dessa frente: "A Ambev tem o desafio de liderar, de fato, a categoria de cervejas. Nosso desafio de longo prazo é manter essa posição. E inovação tem muita relação com esse desafio".
A CBA (Companhia Brasileira de Alumínio), que destina de 1% a 5% da receita a projetos de inovação, também colhe frutos diretos. Maria Eugênia Meireles, gerente da área, ressaltou os resultados do programa DigitALL: "Em 2025, os projetos do programa geraram R$ 42,5 milhões em benefícios acumulados, provenientes de ganhos de produtividade, otimização de processos e redução de desperdícios, evidenciando a relevância do programa na criação de valor para o negócio".
Na WEG, quinta colocada no ranking geral, a inovação é vista como fonte de receita, com o compromisso de aplicar de 2% a 3% do faturamento em pesquisa e desenvolvimento. Carlos José Bastos Grillo, vice-presidente de tecnologia, explicou o engajamento da equipe de 5,5 mil engenheiros: "Todos se envolvem com inovação". Ele citou como exemplo as novas estações de recarga ultrarrápida: "Ela já está começando a chegar nos postos de combustíveis e foi adotada pelos ônibus elétricos de São Paulo. É mais rápida para fazer o carregamento. Quanto maior a potência, mais rápido é o carregamento".
A siderúrgica CSN, sétima colocada, investiu R$ 12 milhões em seu centro de pesquisas em Volta Redonda. Marcio Lins, gerente-geral de desenvolvimento de produtos, destacou os aportes recentes: "Investimentos de R$ 60 milhões no Projeto Selene, com financiamento da Finep, voltado ao desenvolvimento da cadeia de hidrogênio verde no Paraná, e de mais de R$ 150 milhões na produção industrial de materiais experimentais de maior valor agregado".
Já a Blau Farmacêutica, segunda no ranking específico de inovação, aposta forte em biotecnologia. Uilberson Silva, diretor-presidente do Inventta-ICT (instituto fundado pela empresa), comentou sobre o uso de linhas de fomento da Finep: "É uma forma de podermos acelerar o desenvolvimento de produtos em fases iniciais. É uma ferramenta poderosa". Sobre o lançamento de um novo biossimilar para imunoterapia do câncer, ele projetou: "Na Europa, a patente expira em 2031. O Brasil será o primeiro país a receber nosso medicamento".
As que correm risco de eliminação
No outro extremo, 19 empresas (35,8% da amostra) estão nos perfis de "Monitoramento" ou "Risco de Obsolescência". São indústrias que, mesmo quando apresentam alguma estabilidade operacional, demonstram inovação abaixo do potencial necessário para garantir o futuro.
É o caso de Cabo Verde nesta Copa. Vozinha, seu goleiro icônico de 41 anos, foi o eixo central da defesa. Houve lampejos de outros jogadores, momentos de brilho coletivo. Mas sem ele, o que resta? O eixo se desfaz e a próxima Copa traz incertezas enormes. No mundo corporativo, a aposentadoria de Vozinha é a obsolescência tecnológica: quando o produto que sustenta o resultado perde relevância e não há substituto pronto, a incerteza se instala de forma irreversível.
O convite
O IAFT é um convite para que investidores, conselhos de administração e executivos olhem além do balanço trimestral. Ao analisar onde alocar seu capital, olhe para o lucro, mas conte também as patentes, marcas novas, desenhos industriais e imvestimento em tecnologia de fronteira. Observe se a empresa está formando sua base há 13 anos, ou se depende de um Vozinha solitário para segurar o placar.
A Copa termina. O campeonato da perenidade, não.
*Para mais informações sobre o IAFT, busque por Indicador de Avanço Financeiro e Tecnológico no seu buscador ou modelo de IA favoritos.
Acesso democrático à inovação
A farmacêutica brasileira EMS acaba de dar um passo importante para democratizar o tratamento do diabetes tipo 2 no país. Com o lançamento do Ozivy, a primeira alternativa nacional à semaglutida (princípio ativo do Ozempic) produzida por síntese química, a empresa não apenas quebra o monopólio após o fim da patente da Novo Nordisk, mas muda a dinâmica de preços. Em seu programa de fidelidade, o tratamento pode sair por cerca de R$ 333 por caneta.
O unicórnio silencioso
Enquanto muitos olham apenas para as indústrias tradicionais, a Wildlife Studios, principal desenvolvedora de games para celular do Brasil, segue sua trajetória de gigante global. Com receita anual estimada na casa dos US$ 730 milhões e um valuation que já bateu os US$ 3 bilhões, a empresa agora se movimenta para ir às compras. Com caixa robusto, iniciou conversas com bancos de investimento para buscar aquisições.
O interior do Paraná no mapa global
A cidade de Francisco Beltrão (PR) está prestes a abrigar a maior fábrica de whey protein do Brasil. A Sooro Renner está investindo R$ 800 milhões no complexo — o maior aporte privado da história do município. Quando entrar em operação em 2027, a planta terá capacidade para processar 5 milhões de litros de soro de leite por dia e produzir 12 mil toneladas anuais do suplemento, gerando cerca de 2.000 empregos entre diretos e indiretos.
A maturidade dos unicórnios brasileiros
O Brasil já conta com 26 unicórnios consolidados, sendo a legaltech Enter a mais recente a atingir o valuation de US$ 1 bilhão em maio de 2026. O SoftBank, grupo que mais investe nessas startups no país, passa por uma transição de liderança na América Latina com a saída de Alex Szapiro após cinco anos. O fundo deixa um legado de US$ 8 bilhões investidos em 70 empresas na região. O dado que mais chama atenção nesse portfólio maduro é a virada de chave operacional: se em 2021 apenas 70% do portfólio do SoftBank LatAm gerava caixa, hoje esse índice atinge 96%, com dez empresas prontas para IPO. O foco mudou do crescimento a qualquer custo para a disciplina financeira e lucratividade real.