Todo mundo quer, quase ninguém sabe usar
O maior obstáculo da inteligência artificial na pequena empresa brasileira não é dinheiro nem tecnologia. É entendimento.
Todo empresário brasileiro já ouviu falar em inteligência artificial. O curioso é que o maior obstáculo para usá-la não é dinheiro, tecnologia nem acesso. É saber o que fazer com ela. Uma pesquisa da Serasa Experian, divulgada neste mês de julho, ouviu mais de 1.500 pequenas e médias empresas em todo o país e encontrou um retrato revelador: quase seis em cada dez empresários que usam ou pretendem usar inteligência artificial apontam o ganho de produtividade como principal benefício. Ao mesmo tempo, mais de 40% admitem que a maior barreira é uma só. Não sabem o que existe, nem por onde começar.
Repare no que esse dado diz. A barreira não é preço, não é infraestrutura, não é resistência à tecnologia, é desconhecimento! O desejo já venceu, o que falta é repertório e o problema é maior do que parece: segundo levantamento da Confederação Nacional da Indústria, menos da metade dos brasileiros tem domínio médio ou alto de tarefas digitais complexas, categoria que inclui justamente o uso de inteligência artificial. Toda revolução tecnológica cria uma nova forma de analfabetismo. A desta década, pode ser o não saber conversar com uma inteligência artificial.
Esse desconhecimento tem rosto conhecido. O dono de uma pequena empresa ouve falar de IA e imagina robôs, servidores, consultorias caras, algo reservado às grandes corporações. Não percebe que a mesma tecnologia já está no aplicativo de mensagens que ele usa todos os dias. Redigir uma proposta comercial, responder clientes fora do horário, resumir contratos, organizar o fluxo de caixa, preparar uma apresentação: tarefas que a IA executa em segundos, por uma assinatura mensal que custa menos que um almoço executivo. A tecnologia deixou de ser privilégio, mas agora o diferencial agora é saber usá-la!
É aqui que entra uma palavra que deveria estar em toda pauta empresarial deste ano: letramento! Letramento em inteligência artificial não significa aprender programação nem virar especialista em tecnologia. Significa desenvolver três competências. A primeira é formular a pergunta correta, porque a qualidade da resposta depende da qualidade do pedido. A segunda é identificar, dentro do próprio negócio, quais atividades repetitivas devem ser automatizadas primeiro. A terceira é avaliar criticamente o resultado, porque a IA também erra e só quem conhece profundamente seu negócio percebe esses erros. No século passado, alfabetização significava aprender a ler. Nesta década, começa a significar aprender a perguntar.
A própria pesquisa da Serasa mostra que esse aprendizado evolui por estágios. As médias empresas enxergam primeiro os ganhos de produtividade. As pequenas valorizam a economia de tempo. Os microempreendedores individuais percebem, antes de tudo, o potencial para gerar novas ideias. Não existe “a inteligência artificial para empresas”. Existe uma aplicação adequada para cada momento de maturidade. Descobrir em qual degrau dessa escada a empresa se encontra talvez seja metade da transformação.
Há ainda uma razão econômica que torna esse aprendizado urgente no Brasil. Em economias de juros baixos, empresas conseguem conviver anos com processos ineficientes. Aqui, com a taxa básica de juros em 14,25% ao ano, todo investimento disputa espaço com um retorno elevado e praticamente sem risco. Logo, quando o dinheiro é caro, a ineficiência é caríssima. Cada hora consumida por atividade manual, cada retrabalho, cada cliente sem resposta custa muito mais do que custaria em outro lugar do mundo. A ferramenta que, em países desenvolvidos, pode ser vista como conforto, no Brasil vira questão de sobrevivência.
Os resultados já aparecem e uma pesquisa da IBM com 3.500 líderes empresariais em dez países mostra que dois terços das organizações já colhem ganhos concretos de produtividade com inteligência artificial. Mas o dado mais interessante talvez seja outro: o destino do tempo recuperado! As horas antes consumidas por tarefas repetitivas passam a ser direcionadas para inovação, decisões estratégicas e trabalho criativo. A tecnologia não substitui pessoas. Ela desloca o esforço humano para onde a inteligência, a experiência e o julgamento continuam insubstituíveis.
Existe um paralelo histórico útil. A eletricidade não transformou as empresas simplesmente porque passou a existir. Transformou quando os empresários aprenderam a reorganizar fábricas, processos e modelos de gestão em torno dela. Com a inteligência artificial acontece exatamente o mesmo: o impacto não está na tecnologia em si, mas na capacidade das pessoas de reorganizar a forma como trabalham.
O recado vale tanto para o dono da padaria quanto para o presidente de uma indústria. A vantagem competitiva dos próximos anos não virá de quem tem acesso à inteligência artificial, porque ela já está disponível para praticamente todos. Virá de quem compreende seus limites e possibilidades e sabe transformá-la em resultado. Em um país de juros altos e baixo letramento digital, aprender a usar IA deixou de ser curiosidade tecnológica: tornou-se a alfabetização empresarial desta década. O verdadeiro diferencial não será possuir inteligência artificial. Será possuir pessoas capazes de fazer as perguntas certas, interpretar as respostas e transformá-las em vantagem competitiva. O desejo já venceu. O que definirá os vencedores, daqui para frente, será, mais uma vez, o conhecimento.
Diego Teixeira, advogado e CEO da Grownt