Sobre caráter e seleção

Por RICARDO BUENO BRANDÃO

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Falando apenas de Copa do Mundo, competição que se enquadra na categoria de torneio, onde apenas a primeira fase não é eliminatória, considero fundamental para uma equipe ser campeã - extraindo-se o fator sorte - que, além de um “bom” (não necessariamente um ótimo) elenco, haja demonstração de todos em campo - no sentido até de amedrontar o adversário - que naquela partida darão literalmente suas vidas. Pratico futebol desde que nasci e sei que essa atitude tem um peso incrível. Já perdi para muitos times inferiores técnica e taticamente, mas com jogadores com sangue nos olhos e faca nos dentes. Essa atitude assusta, cria desequilíbrio no adversário.

Entretanto, há anos e anos a seleção brasileira não consegue se livrar do pecado da arrogância. No jogo de ontem contra a apenas razoável Noruega, ao invés de atitude de garra, mais uma vez ficou claro para quem entende de futebol que os jogadores tinham em mente que o gol sairia no momento que quisessem. Não entendem que isso acabou há anos, ainda mais quando se trata de uma partida eliminatória em que um time mais fraco está preparado para fazer um gol de bola parada, se fechar, correr, substituir metade dos jogadores, continuar correndo, catimbar (embora as regras tenham ficado um pouquinho mais rígidas para dificultar a cera) e esperar o apito final.

Ontem, a crueldade maior para a seleção brasileira chegou através de uma lição tão somente três horas após a vexatória derrota: assistiram a um jogo no qual os dois times retrataram fielmente o que se chama de atitude de quem quer vencer. Os principais craques de ambos os times - Inglaterra e México - foram os maiores exemplos.

Também não consigo dissociar o comportamento particular de muitos jogadores com seus reais interesses para o futebol brasileiro. A maior parte prefere estar bem conceituada lá fora do que bem vista pelo seu povo (o cara de pau e cabeleira de ouro do Raphinha deu entrevista impressionado com isso).

Desconheço o comportamento dos principais jogadores estrangeiros, mas aqui, num país em que milhões de crianças passam fome, é inadmissível que jogadores milionários se sujeitem a aumentar suas fortunas incentivando a desgraça de famílias com propaganda de apostas.

Certamente há outros exemplos de condutas no mínimo discutíveis dos jogadores. Não tenho dúvida de que grande parte deles prepara os últimos anos de futebol de olho na próxima carreira: a de influencer.
Sim, repito, não há como separar o fracasso do resultado da seleção com este cenário de luxúria que vivem os craques brasileiros.

Por fim, para ilustrar um pouco do que expus aqui, que tal compararmos o gesto do Didi (sobre o qual comentamos na resenha de sábado) na final da Copa de 1958, no instante seguinte ao gol sofrido pelo Brasil contra a Suécia no início do jogo (ele pegou a bola no fundo da rede, colocou-a debaixo do braço e caminhou de cabeça erguida ao centro do campo mostrando acima de tudo liderança), contra a reação do Neymar após seu gol de pênalti em que ficou repetindo ao goleiro norueguês que “aqui é o menino Ney (ou algo equivalente)”, totalmente despreocupado com o resultado do jogo. Também dói comparar a tristeza demonstrada na entrevista do cracaço croata Modric com a indiferença do Vini Jr (novamente o melhor do time), na qual parecia que tinha perdido uma pelada do aterro (nem na nossa pelada ficamos tão relaxados quando perdemos). Cheio de jóias gigantescas nas orelhas e nos dedos e com sorriso mal disfarçado falando que futebol é assim mesmo.

Não dá!!!!

Ricardo Bueno Brandão é engenheiro e botafoguense.