Fé em Deus e pé na bola

Por DANIEL GUANAES

Estamos às vésperas da Copa do Mundo, e grandes eventos esportivos sempre trazem declarações públicas de fé. Em entrevistas após competições, muitos atletas mencionam Deus ao falar de vitórias e de derrotas.

Alguns observadores veem isso como propaganda ou como se a religião funcionasse como um recurso extra dado aos campeões. Mas esse olhar revela pouco entendimento sobre o assunto.

É comum encontrarmos comentários que tratam essas falas como inconvenientes. Alguns sugerem que, ao mencionar Deus na vitória, o atleta estaria dizendo que o derrotado não teve a mesma ajuda. Essa leitura nasce de uma ideia equivocada sobre a fé.

Para quem crê, Deus não é um amuleto, ou uma vantagem competitiva concedida a uns e negada a outros. A fé é a forma como a pessoa entende a própria vida, não um mecanismo para garantir resultados. Por isso, em qualquer competição, atletas cristãos falam de Deus quando ganham e também quando perdem. Eles oram antes e depois das provas, independentemente do placar.

Vemos isso, também, em depoimentos de atletas que convivem com lesões, erros ou eliminações. Muitos expressam gratidão mesmo na frustração, reconhecem limites e afirmam que seu valor não depende de medalhas. Suas palavras mostram que a fé não serve para explicar desempenho, mas para sustentar o caminho.

Também não é raro que atletas de países e tradições diferentes compartilhem gestos de fé após uma disputa, mesmo quando um acaba de vencer o outro. Há orações, palavras de apoio e sinais simples de respeito. Esses encontros mostram como a fé não é estratégia de superioridade.

O ponto é simples: a fé não aparece porque alguém vence, mas porque alguém crê. E quem crê fala daquilo que orienta sua vida, dentro e fora do esporte. A espiritualidade não faz parte do repertório da conquista, mas da experiência humana.

Talvez por isso algumas pessoas se incomodem. Muitas observam esses gestos a partir de preconceitos e supõem um cálculo que não existe. Ignoram que, para a maioria desses atletas, mencionar Deus não é explicar o resultado, mas lembrar que a vida tem um sentido maior.

Seja qual for o lugar no pódio da Copa do Mundo, ou de qualquer outra competição, a fé continua. E isso mostra que Deus não é vantagem competitiva, mas companhia tanto nos dias de vitórias quanto nos de derrota.

Daniel Guanaes, PhD em Teologia pela Universidade de Aberdeen, é pastor presbiteriano, psicólogo clínico e autor do livro “Cuidar de Si”