Magnífica

Por MARIA CLARA BINGEMER

A tão esperada primeira encíclica de Leão XIV finalmente viu a luz. O título tem o perfume de um hino à humanidade, chamada nada menos do que Magnífica.

Magnifica Humanitas é o título do documento, o que não deixa de ser instigante. A verdade é que ao olharmos hoje para o estado desta pobre humanidade pensamos que muito se pode dizer sobre ela, mas certamente não considerá-la ou chamá-la magnífica.

Mau desempenho têm demonstrado os seres humanos nos últimos tempos. Guerra sobre guerra, violência sobre violência, desigualdade, pobreza, opressão e desigualdade em parte significativa da superfície da terra. A crise climática suga os recursos do planeta, aumenta o aquecimento global e a pequena parte da humanidade que age com ambição e cobiça para enriquecimento de uns esmaga a grande maioria mais frágil e vulnerável que vê suas casas derrubadas pelas enchentes, seus rios poluídos, suas florestas derrubadas.

As grandes potências são grandes por sua capacidade de destruição e seu poder ilimitado e autoconcedido. Mas certamente não são magníficas quando invadem países menores e com menos recursos, bombardeiam populações inteiras causando morte de civis e cidadãos pacíficos. Os rostos de crianças em pânico, feridas e ameaçadas inundam as redes e os meios de comunicação demonstrando que a humanidade não tem aprendido as lições da história e depois de tantas guerras, matanças e holocaustos realizados de tão diversas formas continua exercendo a força desmedida que fabricou e utilizou com a razão e a técnica para esmagar outros sem o recurso ao diálogo e à tolerância.

Por que, então a benevolência do Papa ao dizer que é magnífica esta humanidade que vemos tão insignificante e mesmo tão ameaçadora para si mesma? Em que se dá e onde estará sua magnificência? Fazemos recurso à etimologia para buscar compreender essa aparente incongruência no título do documento pontifício.

A palavra magnífica deriva do latim magnificus que significa "grande", "esplêndido" ou "grandioso". A expressão pode ser usada para descrever algo ou alguém nobre, importante que se destaca de outros. Também pode significar algo belo, glorioso ou suntuoso. Algo que recreia a vista e impressiona o afeto e o senso estético. Algo que convoca a razão e o coração a aclamar e elogiar.

Importa notar, no entanto, que a palavra magnificus vem da junção de duas palavras: magnus e facio. E se magnus significa grande, espaçoso ou alto, estando o tamanho associado à ideia de grandeza ou superioridade, magnus também tem o sentido de poderoso, nobre, célebre ou famoso. Magnus pode ainda ter o significado de forte, intenso ou sábio.

Por outro lado, a palavra facio é um verbo que significa fazer, realizar, causar ou praticar. Em português, a palavra fazer vem de uma das formas do verbo facio – facere. Assim, magnificus significa literalmente “fazer grande”. E se é usualmente aplicado em pessoas que “fazem coisas grandiosas” pode ser aplicada ao coletivo da humanidade que, dentro de sua finitude e fragilidade, é criado à imagem transcendente de Deus. Isso a faz singular dentro da comunidade de seres vivos à qual pertence e com a qual convive. Sua singularidade não é privilégio, mas sim acrescida responsabilidade e missão de realizar atos e obras magníficas. Por sua vocação, a humanidade carrega em si o potencial de realizar coisas esplendorosas, grandiosas, belas, magníficas.

São muitas as situações e circunstâncias apontadas pelo texto pontifício onde a humanidade hoje é chamada a ser fiel a sua magnificência original. Vamos nos deter apenas em uma. E começamos por comentar que não é irrelevante que a palavra do título aqui apareça em sua forma feminina. Magnífica é a forma feminina do adjetivo Magnificus.

Por que a importância que aqui damos a este detalhe? Por que nos parece que ele remete a um dos elementos da encíclica que tem significativa relevância para a Igreja e a sociedade como m todo?

Vivemos um momento em que a metade feminina da humanidade vem sendo especialmente maltratada. Para além do silenciamento milenar, da invisibilidade insidiosamente construída, da opressão à qual têm sido submetidas as mulheres, da violência feminicida que as extermina progressivamente, a encíclica contém parágrafos que não apenas explicitam essa situação, mas convocam a transformá-la.

No parágrafo 57 Leão XIV afirma com clareza: Com uma maior consciência do valor de cada pessoa humana e dos seus direitos, cresceu também o reconhecimento dos direitos das minorias. Ainda há, no entanto, um longo caminho a percorrer para, em todo o mundo, serem realmente garantidos de igual forma os direitos duma grande parte, ou seja, os das mulheres. É um dado concreto que «duplamente pobres são as mulheres que padecem situações de exclusão, maus-tratos e violência, porque frequentemente têm menores possibilidades de defender os seus direitos». Portanto, não basta afirmar com palavras que homens e mulheres têm a mesma dignidade e os mesmos direitos; é necessário que isto se traduza em escolhas concretas, em leis, no acesso ao trabalho, à instrução, às responsabilidades sociais e políticas, na forma como a sociedade escuta e valoriza o contributo das mulheres. Enquanto persistir esta disparidade, não poderemos afirmar que a sociedade reconhece às mulheres, verdadeira e plenamente, a mesma dignidade dos homens.

Em outro ponto do texto o Papa menciona mulheres “corajosas e generosas “- e aí cita não apenas santas ou religiosas, mas cientistas, pedagogas, políticas - que contribuíram para tornar a história mais humana: Santa Laura Montoya, Santa Teresa de Calcutá, Dorothy Day, Marie Skodowska-Curie, Maria Montessori, Elisabeth Elliot, Wangari Maathai, Benazir Bhutto.

E volta a denunciar a opressão da mulher quando menciona a nova escravidão que trazem as redes digitais. ...Quebrar as correntes de uma nova escravatura Uma parte significativa do funcionamento da economia digital assenta no trabalho silencioso de milhões de seres humanos, empregados em atividades pouco visíveis, mas essenciais: etiquetagem de dados, moderação de conteúdos – muitas vezes péssimos – e treino de modelos. Em muitos casos, são jovens, majoritariamente mulheres, que trabalham arduamente por uma remuneração mínima.

Para nós mulheres católicas ou que sonham com um mundo onde o feminicídio não siga aumentando e a capacidade da mulher seja reconhecida assim como seu pensamento visibilizado e divulgado, é reconfortante ver a clareza com que Leão XIV expõe essa ferida da humanidade.

Em outras palavras, a nova encíclica afirma que a desigualdade e opressão das mulheres é uma das chagas maiores entre os seres humanos hoje. Enquanto ela estiver presente, nada de grande ou de belo poderá ser realizado pela e para a humanidade como um todo. Em outras palavras a humanidade não será Magnifica, como diz o texto da Encíclica. Dito de outro modo, só será Magnífica se as mulheres com sua identidade e originalidade estiverem plenamente integradas nos ditos e feitos humanos.

Magnífica encíclica, Santidade. Que venham outras. E sempre com a consciência de que não haverá humanidade segundo o sonho de Deus enquanto se persistir em considerá-la “sem contar as mulheres e as crianças. “

 

Maria Clara Bingemer é teóloga e autora de diversos livros, entre eles Teologia de mulheres, Petrópolis, Vozes, 2025