O fio e a trama(9): a trama explode(3): questões preliminares

Por ADHEMAR BAHADIAN

Há, antes de mais nada, um esclarecimento a fazer: o Haiti não é aqui!

Dominado por fações criminosas, o país é um anfiteatro de horrores. E mesmo a merecer, como tem merecido, o apoio da comunidade internacional, através das forças de paz das Nações Unidas, o Haiti permanece um farol em mar traiçoeiro.

Segunda advertência: países democráticos podem tornar-se autocracias tirânicas e o modelo foi descrito com detalhes no hoje clássico livro “ Por que as democracias morrem”.

O Brasil, nesta semana que finda, graças ao trabalho de inteligência da Polícia Federal, viu-se, pela primeira vez, diante de uma óbvia e íntima interação entre a política, o crime organizado e a corrupção institucional.

Sempre se desconfiou de óbvias e esporádicas interações entre a política e a corrupção. Mas, o que se desvenda esta semana é um sistema integrado entre o crime organizado e a corrupção institucional imiscuído com a alta política.

O processo de interação entre a corrupção organizada e a política se aprofundou de forma nefasta com a expansão das emendas parlamentares que permite ao Congresso Nacional deter fatia substancial e crescente do orçamento federal a ser repartido de forma pouquíssimo transparente e com razões que muitas vezes se contaminam com o patrimonialismo de feição coronelista de tão fundo corte em nossa história.

Às emendas parlamentares veio juntar-se a expansão do fundo eleitoral a tornar os chefes partidários poderosos agentes no processo de definição de candidaturas e recandidaturas, num mecanismo parasitário e ao mesmo tempo alimentador das emendas parlamentares e involuntariamente acoplado ao poder discricionário do chefe de partido.

Até então, conviver com este sistema era tão incômodo como um elefante na sala de jantar. Mas, as mãos de gatos são sempre ágeis, e o aparecimento das “big Techs” escalou ao infinito a mercancia política com seus estratagemas eletrônicos de influência quase subliminar sobre os eleitores. Não é gratuita portanto a ação colegiada das “ big techs” em pressionar o executivo brasileiro, e com mais ênfase ainda o Supremo Tribunal Federal, para aceitar que as “ big techs” não estejam sujeitas à lei brasileira e sim à lei americana.

São estes molhos de pirlimpimpim que tendem a fazer o incauto eleitor a interpretar a proposta das big-techs como progressista e democrática, quando na realidade ela usa um princípio democrático como “ a livre manifestação do pensamento” para contornar leis sobre abuso do poder econômico. Distorcem, assim, campanhas eleitorais com sutis artefatos e algoritmos de extrema velocidade e capacidade de repetição.

E os custos dessas empresas de tecnologia são as primeiras a inflacionar o orçamento de uma campanha eleitoral, tornando desproporcional a legítima concorrência entre candidatos.

O caso Master, que começa a se despir diante do público, mostrou esta semana a associação de interesses entre políticos e o crime organizado, dito de colarinho branco, quando consegue fazer com que um senador e presidente de um partido proponha uma emenda constitucional de confessa elaboração por e para um banco essencialmente fraudulento. E como se sabe não param aí as associações fraudulentas da boa-fé do povo.

A corrupção cresce em bola de neve. O aparente “ magnata” nada mais é que um esperto traficante de influência monetária. Como já se disse no passado: “ é dando que se recebe”.

Não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, mas é essencialmente antidemocrático e antissocial. O capitalismo dito neoliberal é pródigo em defender a eliminação de freios a projetos sociais como estamos a ver na administração Trump que surgiu com tantas promessas e está levando a classe média americana a sucessivas crises financeiras.

Pretendo aprofundar estas questões de forma tão transparente quanto possível em artigos futuros. Os interessados em me acompanhar mais de perto, inclusive com possibilidade de trocarmos informações de forma direta e discreta, devem-se inscrever gratuitamente na plataforma Substack. Para tal, entre na plataforma Substack.com e veja as instruções para se tornar meu seguidor - e de centenas de outros articulistas - e passar a receber meus artigos diretamente em seu e-mail. Obviamente, continuarei a escrever no JB, mas não com o grau de abertura e franqueza que imprimirei as minhas conversas mais reservadas com meus seguidores.

Meus artigos se concentrarão, daqui para frente, em debater o momento especialíssimo que estamos a viver no Brasil. Minha orientação política está firmemente fundada na Constituição brasileira de 1988, na defesa do desenvolvimento do Brasil com justiça social. Como diplomata brasileiro de que muito me honro, vivi anos em negociações políticas e econômicas nos órgãos multilaterais da ONU e a ela associados. Conheço muito bem os códigos escritos e não escritos da convivência internacional, e não os confundo com subserviência e temor.

Motiva-me sobretudo a convicção de que estamos a nos aproximar de eleições gerais no Brasil com decisiva importância para o presente imediato e o futuro do País. Todo eleitor tem a obrigação de sair de sua zona de conforto, abandonar a infantilidade de que no Brasil todos são corruptos e não adianta votar. A decisão em quem você votará é sua e exclusivamente sua.

Ninguém é inocente.