O fio e a trama: (6)A trama exposta(1)
Ao mesmo tempo que se complica, a trama trapaceira explode e expõe o pus nauseabundo que a tonifica.
Um dos ideólogos mais loquazes de Trump, Steve Bannon, hoje relegado ao time de gandulas do Executivo Norte- Americano, não deixou dúvidas de que a ascensão de uma “nova ordem” só seria possível depois do aniquilamento do “sistema“ em vigor. A trama política anunciada por Trump tem “slogan” rebarbativo, mas claro: “Make America Great Again”.
Aos poucos, se torna claro que a política de fazer a América grande de novo nada mais é do que a irmã xifoide da política “anti-sistema”. Esta genética tornou mais claro que “fazer a América grande outra vez “implicava uma política de constante e intenso atrito com o resto do mundo, de forte conteúdo revanchista e extrativista“.
Trump sepulta em catacumbas históricas o “soft-power”, oratória universalizante de Roosevelt nos anos 40, de Kennedy nos anos 60 e de Obama nos anos 2000.
Certo, o “soft-power” se beneficiou, em suas origens, com o fim da Segunda Guerra Mundial, da competição URSS x EUA na guerra fria. Enfraqueceu com a ascendência dos ex-inimigos fascistas e comunistas e sobretudo com o Renascimento econômico da Europa .O surgimento de novos atores como os libertos da colonização econômica ,principalmente na África e Ásia, sem mencionar as justas aspirações de desenvolvimento econômico de um país- parceiro de sempre como o Brasil, único país sul-americano a enviar soldados para o campo de batalha na Segunda Guerra Mundial, deu ao quadro da democratização um acento intransponível e inquestionável de crescimento econômico e social
Abro um parêntese necessário para mencionar que durante muitos anos o Brasil se considerou, a justo título, merecedor de uma relação particular com os Estados Unidos da América, datada dos primeiros anos da República com o Barão do Rio Branco. Depois da Segunda Guerra, esta possibilidade de reconhecimento do papel do Brasil foi frustrada com a negativa de o país assumir uma cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações, que parecia certa até que Winston Churchill convenceu os americanos a abandonar a ideia.
Derivaria daí a razão pela qual o Brasil sempre é o primeiro país a abrir o Debate-Geral na ONU, todos os anos no outono nova-iorquino. Honraria hoje a lembrar o Edifício Balança, mas não cai. Já no período de Rio Branco, nas Conferências de Paz após a Primeira Guerra Mundial, nosso representante, Rui Barbosa, defendeu, com unhas e dentes, “a igualdade jurídica dos Estados” e, portanto, o direito de voto nas Conferências internacionais a todos os países, independentemente de sua importância territorial ou econômica. Houve trocas de arrazoados amargos entre Rui e o representante americano.
Rui Barbosa saiu da Conferência com o honroso epíteto de “Águia de Haia“, ave porém não mais convidada a pousar em Conferências internacionais. Fecho o parêntese. E tiro o meu chapéu para Rui Barbosa, que, a meu ver, deveria ser o patrono da diplomacia multilateral brasileira.
Mas, voltemos aos nossos atribulados dias. O primeiro sinal de alarme norte-americano sobre o “sistema universal” foi a decisão de Nixon de acabar com a convertibilidade do dólar em ouro. O fim da convertibilidade inaugura um novo e ainda não findo movimento no sistema financeiro internacional. A matéria é de extrema, porém fascinante complexidade. O melhor livro que conheço sobre o assunto, com grande perspicácia sobre os impactos no desenvolvimento, tem como autor meu estimado amigo e professor de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Mauricio Metri, “História e Diplomacia Monetária“, editora Dialética 2023. Recomendo a meus jovens colegas diplomatas e aos candidatos ao Instituto Rio Branco. É leitura indispensável para quem tem preocupação com o próprio patrimônio.
Reação semelhante se viu no comércio internacional com a criação da OMC (Organização Mundial do Comércio) apontada como o “nec plus ultra“ do “comércio livre” mas que, na verdade e, com muita generosidade, pode ser chamada no máximo da fada do comércio administrado.
A grande novidade da OMC foi a criação de “Tribunais comerciais” como mecanismo de solução de controvérsias. O Brasil foi acusado e defendido neste mecanismo. O caso jurídico mais famoso foi o litígio entre a Embraer e a Bombardier. A história recente do mecanismo comprova que os países em desenvolvimento não conseguem, apesar de ganharem causas no entendimento dos juízes, as compensações devidas pelos países desenvolvidos, sempre reticentes e insubordinados nas horas em que são pegos com a mão na botija. Insolentes, às vezes, nos desafiam a fazer valer nossos direitos na casa da mãe Joana.
O governo Trump tem- se esquivado da OMC, mas dela não se afasta. E o que explicaria a permanência dos Estados Unidos naquela organização? A resposta é simples. A OMC logrou incluir em sua área de competência os chamados novos temas do comércio internacional. Assim, desde sua criação, a OMC se tornou ativa protetora dos chamados Direitos de Propriedade Intelectual que até então estavam sob a jurisdição e regras de outras Organizações internacionais, historicamente mais flexíveis do que as voltadas apenas para regras comerciais. Um exemplo que pretendo desenvolver em outros artigos: OMC x OMPI (Organização Mundial sobre a Propriedade Industrial)
Com a transposição de temas como patentes de produtos farmacêuticos e transferência de tecnologia para as regras da OMC o desenvolvimento tecnológico e a saúde pública começam a sair do comércio livre e entrar no cipoal dos monopólios, cartéis e da pura e agressiva política do empobrecimento de seu vizinho. Ou melhor dito, o retorno ao neoliberalismo, neocolonialismo como coadjuvantes da “Make American Great Again”, política anti-democrática e filo-fascista.
É o que veremos nos próximos textos que publicarei na plataforma Substack, com eventuais excertos aqui no Jornal do Brasil sempre com o objetivo de esclarecer o quadro profundamente complexo que se coloca diante de todo brasileiro nas próximas eleições de outubro de 2026, talvez as mais importantes, tenha você nascido em 1940 ou em 1964.
*Embaixador aposentado