O fio e a trama(5): o Papa Leão
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Dentre tantas incoerências, inconsistências e impertinências com que nos enfastia Sua Excelência, o corretor de imóveis catapultado a presidente, nada parecia poder ainda nos surpreender.
Mas, é inesgotável a criatividade simplória de Mr. Trump. E desta vez, sua ousadia de repreender o Papa Leão XIV pública e agressivamente, talvez tenha sido o mais espantoso e autodestrutivo suicídio político de sua desastrosa gestão.
Provavelmente, Sua Excelência terá confundido o nome de Leão XIV com um nobre qualquer, pernóstico e pedante, expelido da Corte do Rei Arthur para os jardins do Vaticano e a não merecer qualquer reverência maior, inclusive porque, na concepção de Trump, Sua Santidade a ele deveria subserviência por ser cidadão americano e certamente eleito por cardeais interessados em homenagear o presidente. Ele próprio, Trump, aventou esta hipótese, dolorosa e delirante.
Na realidade, se tivesse um mínimo de sensibilidade espiritual talvez tivesse desconfiado de que Leão XIV tenha, na escolha de seu nome papal, homenageado o Papa Leão XIII, o responsável unanimemente reconhecido como iniciador e formulador da Ação Social da Igreja Católica Apostólica Romana.
Leão XIII é o autor da encíclica “Rerum Novarum“, cuja leitura faria enorme bem a políticos de hoje que confundem justiça social com socialismo e mesmo comunismo. Nela, Sua Santidade prega a obrigatoriedade de a Igreja defender a justiça social e exorta a importância de que os trabalhadores tenham remuneração condigna e não sejam explorados pela ganância de um capitalismo apenas a serviço do lucro e da espoliação.
A “Rerum Novarum” estabelece nitidamente que o socialismo e muito menos o comunismo sejam alternativas para um capitalismo com justiça social e defende o regime capitalista como destinado a promover o melhor sistema de progresso econômico e tecnológico sem esquecer o direito à dignidade e a justa remuneração aos trabalhadores.
Ao escolher o nome de Leão XIV, o Papa transmite uma mensagem clara de que concebe o papel da religião católica associada aos mesmos princípios da “Rerum Novarum”, princípios esses que foram reiterados igualmente pelos Papas João XXIII, Bento e Francisco, incorporando e reiterando em suas encíclicas os mesmos objetivos de justiça social da Igreja.
Ao mandar o Papa Leão XIV restringir seus comentários ao que na visão dele, Trump, seria uma espiritualidade desprovida de consciência política, ouviu, em resposta do Santo Padre, o que jamais terá imaginado. E, ao invés de desculpar-se de público partiu, como sempre, para a ignorância, inclusive levando a que seu vice-presidente virasse um vice-versa e, embora sabidamente católico, acompanhou o chefe na caracterização do Papa como socialista.
Sua Santidade respondeu sem delongas que a governança de Trump tem estimulado guerras e tragédias a que estamos presenciando com horror desde a destruição da Faixa de Gaza até a sanguinária mortandade de libaneses, povo de que tantos brasileiros descendem.
E nada será mais contrário aos princípios de justiça social do que o capitalismo pós- neoliberal que estamos a viver. Trump acha justificável promover cortes dramáticos em políticas de saúde pública, educação e ao mesmo tempo defende a redução do imposto de renda para os super-ricos, estamento social que se refastela, sem a menor cerimônia, em sua política econômica.
Trump elimina as proteções sociais com o argumento de que são inúteis. Desta forma, promove uma mortandade crescente. A eliminação das ações humanitárias de órgãos das Nações Unidas, desde que se retiraram deles os Estados Unidos, já repercutem em aumento da fome e de doenças em países pobres. As estatísticas o comprovam a cada dia.
Ao ter emasculado as Nações Unidas e ter criado um inócuo conselho de segurança sob sua presidência eterna, Trump tornou as guerras e as invasões territoriais típicos exemplos de pirataria e bandidagem. A civilização se apequena e se acovarda diante de um neofascismo onde o nome de Deus é invocado em defesa da violência e da barbárie.
Estamos a esperar que o povo americano encontre solução para os terríveis problemas com que nos defrontamos todos. Mas, proliferam as manobras, nem tão secretas assim, de minar os regulamentos eleitorais naquele país que sempre consideramos um paladino da Democracia. Não mais.
Nada nos garante que tão logo Trump se livre do pantanal que criou no Oriente Médio, não retorne sua sanha neocolonialista para a América do Sul e para o Caribe. Já são evidentes os movimentos em direção a Cuba. O embargo dos Estados Unidos parece brincadeira de criança diante do torniquete de impedir que Cuba possa receber petróleo de qualquer país.
Às vezes me surpreendo com a dedicação com que Trump destruiu as boas coisas que Obama fez, tanto no Irã quanto em Cuba. Outro dia ouvi o ex-presidente Clinton comentar na televisão americana que o Irã, após ter concordado com os Estados Unidos sobre política nuclear - depois de dois anos de negociações com o governo Obama - poderia ter justificadas razões para duvidar da palavra dos Estados Unidos, na era Trump.
Um dos primeiros atos de Trump foi rasgar o acordo feito por seu antecessor. Obama estava também estabelecendo melhores relações com Cuba e Trump pretende simplesmente fazer com que Cuba volte a ser um paraíso da jogatina. De cassino parece que Trump entende. O que eu não entendo é a birra dele com Obama. Será que é inveja da inigualável oratória? De qualquer maneira, um presidente caricaturar o casal Obama como gorilas é um atestado de preconceito racial que aqui seria crime.
O Brasil, quando comparado com os Estados Unidos de Trump, é um país infinitamente superior. O episódio com o Papa Leão XIV nos obriga a uma reflexão tranquila, mas de importância inquestionável. O que temos de reconhecer de imediato é o fato de o Brasil, pela voz de seu chefe de Estado, ter manifestado sóbria e digna solidariedade ao Santo Padre.
O Catolicismo é uma marca indelével de nossa civilização. Antes de sermos Brasil, fomos a Terra da Santa Cruz. Nos orgulhamos que em nosso céu nos ilumine o Cruzeiro do Sul. As escolas católicas formaram e continuam a formar gerações de brasileiros. Nosso sincretismo religioso convive pacificamente com nosso sincretismo cultural.
Somos um país ecumênico e aqui convivem harmonicamente as mais variadas religiões do mundo. E não somos sectários. Longe disso.
Ao lermos a Constituição brasileira de 1988, impossível não ver a afinidade de nossos princípios fundamentais com a justiça social que nos aproxima e muito da ”Rerum Novarum”. Somos por determinação constitucional uma economia de mercado. Somos, porém, igualmente defensores da justiça social que não deve ser confundida com o socialismo e o comunismo. Somos um Estado Democrático de Direito. Muito diferente de um Estado totalitário, embora tenhamos tido aproximações malfadadas com o integralismo e seu “Deus, Pátria, Família“ tríade aparentemente inócua, mas enraizada no totalitarismo de extrema direita.
Nossa Constituição não é apenas uma declaração de princípios. É, sobretudo, um programa de trabalho bem determinado: o desenvolvimento com justiça social. Aos governos, aos partidos políticos cabe apresentar ao eleitor programas com o objetivo de progredirmos na moldura constitucional e em estrita observância da justiça social.
Se assim é, assim deverá ser. Subversivas serão medidas que privilegiem o capital sem levar em conta o trabalho. Assim subversivas serão as propostas defendidas por Trump de reduzir o imposto de renda do rico e eliminar ou reduzir as redes de proteção social como a educação para todos, a assistência médica, a previdência social.
Em resumo, são intoleráveis e injustificáveis propostas anticonstitucionais que, na realidade, tem cheiro, andar e fala de inconstitucionais. Não são nem inocentes nem simplórias.
São simplesmente desonestas.
*Embaixador aposentado