Há sinais de desgaste no secularismo?
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Jornais como The New York Times, The Atlantic e The Washington Post têm registrado um fenômeno curioso, nos últimos meses: jovens adultos, sobretudo homens, voltam a frequentar igrejas nos Estados Unidos. Não se trata de uma explosão religiosa, nem de um retorno massivo. Ainda que discreto, o movimento é suficiente para despertar uma pergunta que há pouco tempo parecia improvável: estamos diante de um cansaço do secularismo?
Durante décadas, a narrativa dominante foi a do afastamento progressivo da religião. Especialmente entre os mais jovens, a fé parecia perder espaço para outras formas de sentido, mais individuais, mais fluidas, menos institucionalizadas. O horizonte era claro: menos igreja, menos doutrina, mais autonomia.
O que começa a aparecer agora não é exatamente uma reversão desse processo, mas uma inflexão. Alguns desses mesmos jovens, formados em um ambiente secular, passam a buscar algo que esse ambiente não lhes oferece. Há um interesse crescente por tradição, por ritos, por uma linguagem mais densa sobre o bem e o mal, por pertencimento.
Essa movimentação não ocorre apenas no exterior. No Brasil, pastores e padres têm relatado a chegada de jovens adultos às igrejas. Em alguns casos, trata-se de pessoas que não tiveram formação religiosa na infância. Em outros, de indivíduos que haviam se afastado e agora retornam. Em igrejas tradicionais, com cultos marcados por liturgia, leitura bíblica, oração comunitária e cânticos que não seguem as tendências mais recentes da música religiosa, vemos muitos jovens se aproximarem, participarem e permanecerem, mesmo não sendo um ambiente tão atraente para eles. Alguns dizem que encontraram ali algo que não sabiam nomear; outros falam de silêncio, de reverência, de uma espécie de descanso.
Não vejo nesse movimento um avivamento, ao menos não no sentido teológico clássico. A história do cristianismo registra momentos em que houve conversões em massa, concentradas em determinadas regiões e períodos, acompanhadas por transformações sociais visíveis. Não é isso que está em curso. O que vemos hoje é mais fragmentado, mais localizado, menos espetacular.
Ainda assim, seria um erro ignorar o que está acontecendo. Talvez estejamos diante de uma revalorização da tradição religiosa em um contexto que já experimentou os limites do secularismo. Não se trata de rejeitar a modernidade, mas de reconhecer que ela não esgota as perguntas fundamentais da existência. Quem sou; para quê vivo; o que devo amar; o que devo temer. Perguntas antigas, que continuam a nos visitar.
O secularismo prometeu liberdade e, em muitos aspectos, cumpriu. Mas liberdade sem direção pode se transformar em desorientação. Quando tudo é possível, nada é necessário. E, nesse vazio, cresce a necessidade de estruturas que não sejam apenas escolhidas, mas recebidas.
Talvez seja cedo para qualquer diagnóstico definitivo. Movimentos culturais são lentos, por vezes ambíguos, quase sempre contraditórios. Mas o fato de que jovens, formados fora das igrejas, estejam atravessando suas portas novamente já diz alguma coisa. Não sobre um retorno ao passado, mas sobre um presente que começa a reconhecer suas próprias insuficiências.
Daniel Guanaes, PhD em Teologia pela Universidade de Aberdeen, é pastor presbiteriano, psicólogo clínico e autor do livro “Cuidar de Si”