Argentina: 50 anos para nunca mais

Por MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER

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A Argentina celebrou no dia 24 deste mês de março, um amargo aniversário. São cinquenta anos nesta data que o povo de Gardel, de Fangio e de Jorge Mario Bergoglio, aliás Papa Francisco ouviu a notícia de que o governo de Isabel Martinez de Perón havia caído derrotado por um golpe de estado. Pouco depois veio o anúncio de que o país seria governado por uma junta militar formada por representantes das três armas: Jorge Rafael Videla pelo Exército, Emilio Eduardo Massera pela Marinha e Orlando Ramón Agosti pela Força Aérea.

Ali teve início o que foi chamado “processo de reorganização nacional”, nome oficial da sangrenta ditadura que governou o país de 1976 a 1983 e que deixou como saldo, segundo várias organizações de direitos humanos, mais de 30000 desaparecidos. São pessoas das quais não se sabe até hoje o destino ou paradeiro. Simplesmente “desapareceram”.

Muitos desses, em boa parte jovens, foram sequestrados e deles não se ouviu mais falar. alguns foram levados de suas casas, durante o dia ou mesmo de madrugada, no meio da noite. Outros saíram para ir ao trabalho, ou à universidade, ou a um encontro e depois disso jamais voltaram ou deram notícias. Buscados, não se encontrava informações sobre eles. Literalmente, “desapareceram” do alcance dos sentidos e da presença daqueles que os conheciam e amavam: suas famílias, seus amigos.

Essa categoria de “desaparecidos” marca a narrativa que o país faz daqueles anos de chumbo. Encontra semelhanças com narrativas de outras ditaduras vizinhas, como Chile e Brasil. Para simplificar, podemos descrevê-la da seguinte maneira: havia alguém, homem ou mulher, que vivia e se movia. Estudava ou trabalhava. Amava e era amado. Lutava e se comprometia. E de repente não existe mais. Seus familiares perguntam por ele e ninguém sabe informar seu paradeiro. Seus amigos, seus vizinhos, seus colegas, seus professores, seus empregadores, ninguém sabe informar onde está esse ou essa que ali estava há alguns dias – e meses e anos - e agora não está mais.

A perplexidade e a angústia se faziam mais agudas devido à ausência de corpos, que testificassem a morte de tais pessoas. Não se sabia se esse que “desapareceu” estaria vivo ou morto. O então chefe de governo, general Jorge Rafael Videla, ensaiou uma descrição do que seria um “desaparecido”. Em uma entrevista coletiva, foi questionado pelo jornalista Ignacio Lopez à raiz de um pronunciamento do então Papa João Paulo II sobre a situação do país. Preocupado pelas pessoas desaparecidas e ante a falta de resposta por parte das forças de segurança, o pontífice questionou o chefe de estado sobre tantos “desaparecidos” que eram buscados e reclamados por familiares e amigos.

O general respondeu: “Diante do desaparecido, enquanto se encontre como tal, é uma incógnita. Se o homem aparecesse, receberia um tratamento X. Se a desaparição se convertesse em certeza de seu falecimento, receberia um tratamento Z. Enquanto está desaparecido, não pode receber nenhum tratamento especial, é uma incógnita, um desaparecido, não tem entidade. Não está nem morto nem vivo, está desaparecido. “

Houve aqueles e aquelas que, no entanto, não ficaram satisfeitos com a resposta do general. Vários grupos se mobilizaram, fizeram denúncias no exterior, tentando receber a informação sobre onde estavam seus seres queridos. Digno de assinalar-se sobretudo é um grupo de mulheres: as mães que não encontravam nenhuma informação sobre o paradeiro de seus filhos. Mais; as mães que sabiam que suas filhas estavam grávidas quando desapareceram e queriam saber sobre seus netos. Haviam nascido? Onde estavam? O que havia acontecido com esses bebês que nasceram do ventre de suas filhas?

Essas mulheres puseram uma fralda branca sobre a cabeça assumindo a identidade de seus desaparecidos filhos, filhas e netos e netas. Proibidas de reunir-se pela lei do país sob regime de força, passaram a caminhar em círculos diante do palácio do governo, sob a janela do ditador. Outros que não eram mães nem avós, mas lutavam pela volta da democracia e em favor dos direitos humanos se uniram a elas: religiosas, cidadãos honestos, padres, leigos e leigas. Os “desaparecidos” sobre os quais falou tão hermeticamente o presidente da nação agora tinham uma identidade: a de suas mães e avós que por eles arriscavam a vida todos os dias e deles faziam memória viva e incessante.

A democracia voltou ao país em 1983. Em 1985 a Argentina deu um exemplo ao mundo levando a julgamento os responsáveis pela junta militar e seus colaboradores mais estreitos. Foram julgados por seus crimes e sentenciados à prisão. Neste momento, todo o povo argentino liderado pelo presidente Raul Alfonsin, através da voz do juiz Julio Strassera e seus colaboradores diretos pronunciou a famosa expressão que até hoje identifica a raiz do sentimento nacional: “Nunca Más” (Nunca Mais)

Essa expressão, utilizada para repudiar o terrorismo de Estado, foi adotada pela Comissão Nacional sobre a Desaparição de Pessoas para intitular seu programa de televisão e o informe final sobre sua pesquisa, publicado em um livro com sucessivas edições. Este mesmo informe foi utilizado para julgar e condenar as juntas militares. A expressão utilizada pelo juiz Strassera clausurou a sentença. “Senhores juízes: Nunca mais”.

As mães e avós, no entanto, continuam suas buscas. Há netos que ainda não apareceram e é preciso devolver-lhes sua história e sua família, roubadas pelo arbítrio da ditadura. Há filhos sobre os quais não se encontraram os restos nem qualquer informação. É preciso saber o que aconteceu com eles, para dar-lhes sepultura, poder chorá-los, fazer seu luto e reencontrar a paz. Neste aniversario, as numerosas manifestações realizadas nas ruas e praças demonstram que a Argentina deseja seguir com seu processo de anamnese, fazendo memória das vítimas. Para que a vida triunfe e a violência e a morte nunca mais se instalem. Que assim seja.

 

Maria Clara Bingemer é teóloga e autora de vários livros, entre eles Sede de Deus nos desertos contemporâneos. Aproximações teopoéticas, São Paulo, Recriar, 2025