Menina, levanta-te!

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Por MARIA CLARA BINGEMER

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Mais uma vez celebramos o Dia Internacional da Mulher. Todo ano se celebra. E até onde eu me lembre, sempre carregado de más notícias.

A coisa não anda bem para as mulheres e o fato de ser mulher e conseguir viver parece cada vez mais perigoso. No Brasil, o feminicídio continua em alta. São 1568 vítimas de feminicídio em 2025, o que significa um aumento de 4,7% em relação a 2024. Após a promulgação da lei do Feminicídio de 2015, foram registrados mais de 13.7 mil casos. Os dados são do levantamento Retrato dos Feminicídios no Brasil, divulgado na última quarta-feira, dia 4 de março, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.image.pngimage.png

Além do patético dado do aumento exponencial de assassinatos de mulheres, o estudo ainda registra o fato de que as principais vítimas são negras. Um ponto se repete e mostra constância: a maior parte dos casos acontece dentro de casa e o assassino é um familiar ou alguém muito próximo da mulher.

Porém hoje, aqui e agora às vésperas deste 8 de março de 2026, quero falar mesmo é das meninas Aquelas que estão crescendo, que ainda são meio crianças, meio moças. A palavra “menina”, doce e terna palavra provém do latim mininnus, que por sua vez vem de minus, significando menor, pequeno ou novo. A forma feminina da palavra menina firmou-se a partir da alteração de “menino”, derivado diretamente de mininnus, indicando uma criança do sexo feminino.

A vulnerabilidade e a situação de fragilidade jorram da história e da raiz do termo. Menina é a mulher ainda pequena, criança, que não consegue valer-se por si mesma, que precisa ser protegida e cuidada, para poder crescer e ser plenamente aquilo que já é em embrião: mulher.

Não há um Dia internacional da menina. Por isso hoje a homenageamos no Dia Internacional da mulher. E isso decorre do fato de que nos últimos dias têm circulado pela mídia as notícias mais horríveis e repulsivas sobre ataques e violências impensáveis cometidas justamente contra meninas, crianças do sexo feminino, jovens mulheres.

Em Minas Gerais uma menina de 12 anos era regularmente estuprada e abusada por um homem de 35 anos, com o qual residia. O acusado foi primeiramente absolvido sob alegação de que a relação era “consensual”. Como pode ser que um jurista faça essa interpretação considerando a idade e a situação do abusador e da vítima? Finalmente foi condenado. A mãe, que participava do crime consentindo em que a menina habitasse com o estuprador, também foi presa. A menina, uma criança de 12 anos, está marcada para sempre. A vida que tem diante de si é um desafio apavorante que terá que enfrentar com todas as feridas que carrega em seu corpo ainda infantil e frágil.

No Rio de Janeiro, uma menina, adolescente de 17 anos, foi conduzida a um apartamento em Copacabana, na zona sul do Rio, pelo ex-namorado. Ali, foi estuprada coletivamente por cinco jovens, quatro apenas adultos e um menor de idade. Os culpados foram presos. Quanto à menina, segundo a mãe, está completamente abalada e sem encontrar sentido para sua vida. O mundo lhe aparece como um monumento ameaçador, onde para sempre ela estará marcada com a violência que lhe aconteceu.

Enquanto isso no Oriente Médio, o primeiro dia da guerra contra o Irã teve como resultado o bombardeio de uma escola de meninas em Minab, cidade situada ao sul do país. A tragédia, provavelmente oriunda de um ataque dos Estados Unidos a bases militares iranianas matou 168 meninas. A tragédia expôs diante dos olhos do mundo inteiro os horrores da guerra que ali se desenrola. E mais: revelou uma vez mais os impactos que esse tipo de conflitos provoca na vida de toda a população, mas muito especialmente nas vidas de mulheres. Neste caso de meninas que estavam vivendo um dia normal, em sua escola, estudando e convivendo umas com as outras.

Como todas, esta guerra teoricamente acontece com vistas a uma suposta “libertação”. Neste caso, uma libertação do Irã do regime dos aiatolás. Mais aberrante ainda se torna o fato de que um dos primeiros alvos do conflito haja sido justamente uma instituição educacional de educação infantil feminina. O absurdo da guerra se faz ainda mais explícito quando a violência mortal se abate sobre alvos tão vulneráveis e desprotegidos.

A carga simbólica deste fato é forte e desvela igualmente novos aspectos dos dois primeiros casos sucedidos no Brasil. A violência feminicida está reduzindo seu limite de crueldade sempre mais: de mulheres para meninas. Ceifa a vida das mulheres quando ainda são crianças, e não completaram seu crescimento e maturidade.

Matar mulheres é matar a humanidade, a vida, a fonte da vida. Matar meninas é assassinar o futuro, aproximando-nos cada vez mais de uma tragédia final e uma esterilidade sem remédio.

É duro celebrar este 8 de março ao som de todas estas notícias. É difícil pensar que tantas mulheres receberão flores e chocolates enquanto sua segurança se encontra ameaçada a cada momento, às vezes pelo mesmo que as homenageia nesta data oficial. É mais revoltante ainda quando se pensa nas mulheres ainda meninas, pequenas, menores, indefesas.

Tenho a graça de, entre meus cinco netos, contar com três lindas meninas. Respectivamente de 18, 16 e 12 anos. É pensando nelas e em todas as outras que sofreram violência nestes últimos dias que recordo aqui uma passagem do Evangelho de Marcos 5, 21-24; 35- :

Jesus é procurado por Jairo, chefe da sinagoga, pedindo-lhe que vá curar sua filha de 12 anos que está muito doente. Antes de que chegassem à casa vêm avisar a Jairo que a menina morreu. Jesus apela à fé de Jairo, dizendo-lhe que creia. E toca a menina enquanto lhe diz: Talitá Cumi: Menina levanta-te. O texto de Marcos relata que a menina se levantou e começou a andar.

Infelizmente não basta apenas proteger e amar nossas meninas. É preciso rasgar a inocência de seus jovens anos e alertá-las para que se cuidem e suspeitem dos que delas se aproximam. Só assim poderá ser realidade um mundo onde a violência contra a mulher comece a se tornar um medo que pertence ao passado e não ameaça mais o presente nem o futuro. As meninas têm que levantar-se. A vida as espera e não a morte. Meninas queridas, levantem-se e fiquem juntas. Não abram espaço para os predadores. Vocês são guardiãs da vida e merecem viver plenamente.

 

Maria Clara Bingemer. Professora do departamento de teologia da PUC-Rio