O fio e a trama
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Impossível negar : o ovo da serpente rompeu. E dele saíram cobras e lagartos. Ninguém mais tem direito a ingenuidades ou a distrações. O futuro dos Estados Unidos parece ser, esperemos não definitivo, a opção pelo passado: o imperialismo. A opção pelo passado no Brasil seria a opção pela recolonização . A única esperança está nas mãos de um povo dividido e ainda parcialmente cego por luzes mistificadoras de que o “futuro espelha a nossa grandeza”. A hora dos encantamentos acabou. Não se trata de um teorema, mas de uma obviedade, como adiante se procurará demonstrar.
Mas antes, um axioma se impõe: nada indica que este povo ,circunstancialmente dividido , tenha perdido sua opção pela Democracia. Minha geração, nascida sob os acordes fúnebres do integralismo, acompanhou a Força Expedicionária Brasileira na sua infância, sofreu os governos autoritários do AI- 5 e renasceu com a restauração trazida, ainda que parcialmente, pela Constituição Cidadã. Hoje são incontáveis os movimentos de união nacional até mesmo em torno do cinema brasileiro de que são exemplos os recentes e premiados “ Ainda estou aqui” e “ O agente secreto”.
A lição é clara e contundente: não há Democracia com governo autoritário. A marca do fascismo é indelével nos governos autoritários . Como foram os de Hitler, de Mussolini, de Stálin. A característica central do governo extremista seja ele de extrema direita ou de extrema esquerda sempre é a agressividade contra o outro. Contra o não-partidário, seja por razões políticas, éticas ou econômicas. Ou religiosas.
A grave crise que estamos a ver mundo afora se aprofundou no segundo mandato de Trump nos Estados Unidos da América, mas não começou com ele nem com ele acabará ,caso seja derrotado nas próximas eleições. Forçoso reconhecer que o processo de degradação democrática é mais facilmente originário das transformações trazidas pelos chamados neoliberalismo, globalização e pelas crises financeiras sucessivas iniciadas a partir da inconversibilidade do dólar e dos governos messiânicos de Reagan e Thatcher.
Não creio que esse marco histórico seja questionável por analistas sérios. O que necessita análise mais detida é a ascensão dos extremismos que estão a modificar para pior as sociedades em suas relações internas e externas. E esse é um ponto crucial no Brasil de hoje.
Temas como esses se tornaram vitais. No momento em que escrevo, a indefinição das eleições presidenciais no Brasil passa por uma teia de subjuntivos e condicionais impensáveis num pais que conheceu a face impiedosa da Ditadura e que muito recentemente escapou ,por um triz ,de um golpe de Estado. E não estou me concentrando em nomes deste ou daquele candidato. O que me assusta é muito mais o nível do debate politico e o mergulho na insanidade de certas propostas sempre salvacionistas como as que nos vieram de Presidentes eleitos pelo voto popular em décadas recentes. Sem falar no Congresso que nos surpreende a cada dia com sua genialidade em nos decepcionar.
Há hoje inquestionavelmente um compreensível nojo diante de um quadro politico tão apodrecido de corrupções e sobretudo com a cara de pau dos corruptos a sempre encontrar desculpas esfarrapadas ou agressivas acusações para tornar o anormal normal.
Às vezes me pergunto o que nos diria hoje Hannah Arendt diante dos massacres em Gaza ou o que nos diria Benjamin Franklin diante da grosseria de Trump aos Europeus.
O caso de corrupção do banco Master, independentemente dos devidos processos judiciais em curso, deixará sempre questionável o real compromisso dos super-ricos com a cidadania e a ética e esfacela de vez a argumentação defendida pelos neoliberais que a redução de taxas incidentes sobre o grande capital resulta em benefício da sociedade como um todo. Este conto não vale um conto.
Não concordo porém com os que apregoam que o caso Master - quanta ironia- tenderá a fazer o eleitorado brasileiro pender para os candidatos da extrema direita . Mas, este é assunto que abordarei mais profundamente na plataforma Substack onde pretendo dialogar de forma mais direta e confidencial com os meus leitores. Se você não recebeu este artigo em sua caixa de e-mail , você deve se inscrever no Substack.com e assinar gratuitamente , escrevendo meu nome na etiqueta que aparece após a abertura da plataforma.
Pretendo iniciar no Substack um diálogo claro sobre como vejo os atuais impasses brasileiros .Não será uma relação passiva do leitor, mas uma oportunidade de fazer comentários, críticas e sugestões. Na verdade, vamos juntos desfiar “ o fio da trama”.
Juntos, porque não tenho a pretensão de ser o dono da verdade.
Adhemar Bahadian é embaixador aposentado.
