Lavando a mente e o coração
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Hoje, ao passar por um semáforo, vi um rapaz bonito pedindo Pix para os carros que estavam parando por ali.
Refleti sobre a situação daquele moço e pensei: ele poderia ter um trabalho, exercitar o seu talento, ganhar dinheiro com mais dignidade. Por que será que ele não tem um trabalho? O mercado o marginalizou por falta de formação acadêmica ou pelo tom de pele? Seria tão bom que ele trabalhasse…
Ao fim desse turbilhão de pensamentos, um insight me ocorreu: ele está trabalhando!
Muitas pessoas trabalham, de uma forma ou de outra, em empresas, escritórios ou em casa administrando a própria vida. As diferenças estão no propósito, na remuneração e na forma de trabalhar.
A vida exige esforço, labuta! Não dá para ficar parado.
A forma como nos relacionamos com o trabalho mudou bastante e tem se modificado ao longo do tempo. Houve uma época em que o expediente era delimitado dentro do horário intitulado comercial. Hoje, parece não haver mais isso.
Também tínhamos que nos locomover para chegar ao local de trabalho. Atualmente, tenho a impressão de que precisamos nos locomover apenas para nos afastar dele.
Alguns vivem para o trabalho, outros passam a vida fugindo da condição de trabalhador. Há também os que se relacionam com ele sem entender muito bem o seu significado.
O sociólogo Max Weber disse certa vez: “O trabalho dignifica o homem”. Contudo, de acordo com uma pesquisa descrita no livro A morte é um dia que vale a pena viver, entre os cinco principais arrependimentos dos seres humanos em estado terminal, não encontramos o arrependimento por ter trabalhado pouco.
As pessoas se arrependem por ter utilizado mal o seu tempo, pela falta de perdão ou de amor-próprio.
Fala-se muito a respeito da felicidade no trabalho. Indo um pouco além, a partir de 2026 teremos uma exigência de cuidado com a saúde mental por meio da NR-1. (A Norma Regulamentadora nº 1 é a base da Segurança e Saúde no Trabalho (SST) no Brasil, estabelecendo diretrizes gerais, responsabilidades de empregadores e empregados, e introduzindo o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), com foco na prevenção de acidentes e doenças, incluindo agora a gestão obrigatória de riscos psicossociais — saúde mental — em todas as empresas.)
Na busca por realização profissional, os colaboradores buscam salário e os empregadores querem resultados, mas, por vezes, negligenciam o alinhamento de propósitos e missão. Isso gera desgaste, descontentamento e frustração para ambas as partes. A felicidade no trabalho escorre pelos dedos…
Em recente entrevista, a CEO da Amazon no Brasil, Juliana Sztrajtman, falou sobre a importância da comunicação com empatia para criar nas pessoas a autonomia necessária para que elas ajam. Essa segurança psicológica traz senso de competência, um dos maiores pilares mantenedores da motivação e a felicidade no trabalho, o que, consequentemente, gera bons resultados.
Não tenho a intenção de romantizar o trabalho, mas acredito que a felicidade, a perseverança e o sucesso no trabalho estão muito atrelados ao amor pelo que se faz.
Há uma passagem na Bíblia que conta a história de três discípulos de Jesus que pescaram a noite inteira e não pegaram nenhum peixe. Mesmo após o fracasso, um deles foi lavar as redes. Quem é pescador sabe o que acontece com a rede após uma noite de tentativa de pesca: fica suja, estraga, rasga.
O ato de lavar é simbólico, mostra que há esperança para uma nova pescaria. No caso desses homens, a nova pescaria teve um resultado divino, após obedecerem à recomendação do Mestre. Essa disposição de acreditar que um fracasso não define o rumo da nossa história é fundamental.
Fim de ano é tempo de refletir sobre o que realizamos, onde estamos e aonde queremos chegar. Algumas viagens são planejadas, e isso é ótimo. Que possamos também fazer uma viagem interior e entender o que temos construído.
Ter mais intencionalidade ao pensar no trabalho, definir metas e objetivos para que consigamos oferecer nossos talentos ao mundo, construir relações verdadeiramente saudáveis e ampliar nossas competências por meio do aprendizado contínuo é um bom caminho para quem quer crescer profissionalmente. Entender o propósito do que fazemos trará uma realização maior e duradoura.
Em sua autobiografia, o criador da Nike , Phil Knight disse que ele pensava em como poderia ter um trabalho que o fizesse sentir que estava praticando um esporte. Ele tinha o propósito de encontrar prazer no trabalho.
Encerro este artigo com uma frase de Nelson Mandela: “Eu nunca perco. Ou venço, ou aprendo!”
Que tenhamos um olhar atento as oportunidades, que possamos construir uma sociedade na qual jovens saudáveis não tenham que solicitar Pix em semáforos
Que em 2026 possamos fazer como os pescadores: lavar e costurar. No nosso caso, não seriam redes, e sim a alma e as boas relações. Sempre crendo que o impossível pode acontecer!
Cristiana Aguiar. CEO da Jeito Certo Consultoria. Economista