Às favas com a soberania
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Pensou que o início de 2026 fosse ser calmo? Parafraseando o Choque de Cultura: "Pensou errado, otário!”
Petróleo, Maduro, Trump, Delcy, Doutrina Monroe, Doutrina "Donroe", Rubio… Se sua semana foi subitamente encharcada por essas palavras, nessa newsletter vou chamar atenção para outro termo que também entrou neste caldo que nos pegou de surpresa no dia 3 de janeiro.
Em voga desde meados do ano passado, quando Trump aplicou o tarifaço sobre o Brasil, o conceito de soberania parece achincalhado como nunca antes neste século 21.
Antes, vale relembrar o que diz o dicionário:
Soberania
1. qualidade ou condição de soberano.
2. superioridade derivada de autoridade, domínio, poder
3. propriedade ou qualidade que caracteriza o poder político supremo do Estado dentro do território nacional e em suas relações com outros Estados.
4. conjunto de poderes que constituem um Estado politicamente organizado.
5. figurado autoridade moral, tida como suprema.
Na época dos reinados, quem salvaguardava a soberania era Deus. O Direito Divino dos Reis se baseava na crença de que o monarca soberano reinava por vontade Dele, e não pelo desejo do povo ou do parlamento.
Depois da 2?ª Guerra Mundial, o guardião virou o multilateralismo, este conceito tão vilipendiado quanto a soberania.
Esta semana, como esperado, as Nações Unidas condenaram as ações dos EUA e disseram que o país violou os princípios do direito internacional, pois não pode ameaçar ou usar força contra outras nações. Mas e daí?
Vocês se lembram que na Assembleia Geral da ONU de 2025, quando “pintou a química” com Lula, Trump reclamou das escadas rolantes e fez pouco caso da organização, bem ali, no púlpito, durante seu discurso?
Aqueles comentários foram apenas alegorias da desvalorização do multilateralismo e do seu papel de protetor das soberanias nacionais.
A investida na Venezuela apenas tirou o verniz de outras ações do atual governo e resgatou explicitamente a abordagem dos EUA em relação à soberania de outros Estados.
“O domínio dos EUA sobre o Ocidente não vai mais ser questionado”, Trump disse na coletiva após a captura de Nicolás Maduro.
Lembrem-se que há pouco mais de dois meses, quando das eleições legislativas da Argentina, Trump ameaçou não liberar uma ajuda econômica de US$ 20 bilhões, se a oposição a Javier Milei vencesse o pleito. Deu Milei na cabeça.
Afinal de contas, “Este é NOSSO hemisfério, e o Presidente Trump não permitirá que nossa segurança seja ameaçada”, como disse o Departamento de Estado dos EUA após o ataque à Venezuela.
Portanto, às favas com a soberania. Vem mais intervenção por aí. Seja por aparato militar, por chantagem econômica, por ameaças políticas.
Então quais são as saídas para preservar a soberania diante da nova ordem imposta pela política externa dos EUA? E como este processo foi construído nas últimas décadas (não apenas no governo Trump)?
Se você chegou até aqui é porque está realmente atenta/o ou preocupada/o com o que está acontecendo. Passado o choque, te convido a pensar com a gente, na Pública, as saídas para este enrosco. Lembre-se que 2026 é ano de eleição.
Maria Martha é colunista da Agência Pública.