Venezuela - Reorganização do mundo
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Com a confirmação dos ataques dos EUA a Fuerte Tiuna e a captura de Nicolás Maduro, o “conflito congelado” na Venezuela chegou ao fim. Por 25 anos, Washington observou, com uma mistura de sanções e apatia, sua vizinhança mergulhar no caos. Hoje, a era da indiferença termina violentamente.
Enquanto a mídia tradicional se concentra na legalidade da Operação Lança do Sul ou nas críticas partidárias em Washington, ela ignora o sinal em meio ao ruído. Não se trata apenas de remover um ditador. É o golpe final na globalização.
Estamos testemunhando o nascimento cinético da Tecnolocalização: o imperativo estratégico de trazer de volta as cadeias de suprimentos, os recursos e a segurança para o mesmo hemisfério.
I. A expulsão do dragão
Sejamos claros quanto ao alvo. O ataque foi fisicamente em Caracas, mas a mensagem foi enviada a Pequim.
Durante a última década, a China construiu um “império sombra” na América Latina, adquirindo os ativos que os EUA ignoraram.
A Armadilha Portuária: no Peru, a China construiu o gigantesco Porto de Chancay — apelidado de “Xangai da América do Sul” — para contornar o Canal do Panamá e controlar a logística.
A Rede Energética: empresas estatais chinesas detêm quase metade da rede elétrica do Chile e importantes ativos de energia no Brasil.
A Armadilha da Dívida: a Venezuela deve bilhões a Pequim, uma dívida paga com petróleo que abasteceu a marinha chinesa enquanto o povo venezuelano passava fome.
A Doutrina Monroe 2.0 é um aviso de despejo. Ao decapitar o regime de Maduro, os EUA cortaram a âncora política da influência chinesa na região. A nova política é simples: Infraestrutura estratégica no Hemisfério Ocidental deve ser de propriedade ocidental. Estamos passando do “livre comércio” para o “comércio seguro”.
II. A geologia do poder: A nova Tabela Periódica
Para entender o momento atual, pare de olhar para mapas políticos e comece a olhar para mapas geológicos. O século XX foi marcado pela disputa pelo petróleo. O século XXI está sendo disputado pela Tabela Periódica — especificamente, pelos minemrais críticos necessários para as indústrias de IA e Defesa.
O “Ouro Azul” Venezuelano: Ao sul do Rio Orinoco fica o “Arco Mineiro”. Por uma década, este foi um buraco negro onde o Cartel dos Sóis e entidades chinesas extraíam coltan ("nióbio-tântalo") e tório ilegalmente. Esses são os minerais essenciais para a eletrônica moderna. O ataque dos EUA acabou de cortar a linha de suprimento ilícito mais crítica de Pequim no Ocidente.
A Surpresa do Suriname: Olhe para o leste, para o Suriname. O Escudo das Guianas é rico em Monazita e Cério — terras raras atualmente refinadas quase que exclusivamente na China. Com a instabilidade venezuelana neutralizada, o prêmio de risco na região desaparece. Estamos analisando a criação de uma “Costa Mineral Crítica” contínua, integrada à indústria ocidental.
O Triângulo do Lítio: Ao combinar uma Venezuela estabilizada com os gigantes do lítio, Chile, Argentina e Bolívia (que detêm 60% das reservas mundiais), o Hemisfério Ocidental torna-se materialmente soberano.
III. A Teoria dos Jogos de um colapso
Por que o regime desmoronou tão rápido? A resposta reside na lógica fria da Teoria do Eleitorado (do Manual do Ditador).
Maduro governava porque pagava uma pequena “coalizão vencedora” de generais. Sua moeda não era o Bolívar — era dinheiro do narcotráfico.
O Dilema do Prisioneiro: O bloqueio naval dos EUA e os ataques aos centros logísticos dos cartéis não apenas destruíram a infraestrutura; eles também acabaram com a folha de pagamento. Isso forçou cada general a uma armadilha da Teoria dos Jogos com um prazo de 48 horas:
Cooperar com Maduro: Lutar contra os militares dos EUA, perder seu dinheiro e provavelmente morrer.
Defeito: Entregue Maduro, fique com seus bens e se aposente na Espanha.
Em um dilema do prisioneiro onde o outro jogador é um grupo de ataque de porta-aviões, a escolha racional é mudar de lado. O regime não perdeu uma guerra; sucumbiu a uma chamada de margem.
IV. O 'efeito barata' no crime organizado
Esta operação foi o maior golpe contra o crime organizado na história. A Venezuela não era um Estado; era uma organização criminosa com assento na ONU que atuava como a principal ponte aérea para os cartéis de Sinaloa e CJNG transportarem cocaína para a Europa e África Ocidental.
Ao tomar os aeroportos (La Carlota) e os portos (Puerto Cabello), os EUA efetivamente “gentrificaram” o bairro. Mas isso tem um custo enorme a curto prazo: o efeito barata. Quando você acende as luzes em uma cozinha suja, as pragas se espalham para os vizinhos.
Devemos nos preparar para um aumento imediato e violento na Colômbia, Equador e México. Com o desaparecimento do refúgio venezuelano, esses grupos lutarão ferozmente pelos corredores de contrabando restantes, cada vez menores. A pressão na região acaba de ser totalmente dissipada, e o vapor precisa escapar de algum lugar.
V. O efeito dominó político
A onda de choque chega precisamente quando a região está politicamente vulnerável.
Colômbia (eleições em maio de 2026): O momento é explosivo. A extrema-esquerda colombiana, que protegeu Maduro sob o pretexto de “paz total”, agora é politicamente tóxica. A greve valida o argumento da oposição: segurança é pré-requisito para a prosperidade. Espere uma forte guinada à direita, impulsionada por eleitores cansados de guerrilheiros que acabaram de perder sua retaguarda.
Brasil (eleições em outubro de 2026): Lula está encurralado. Sua base exige que ele condene o “Imperialismo Ianque”, mas o poderoso setor agroindustrial brasileiro secretamente acolhe a estabilidade. Se os EUA enquadrarem isso como uma “parceria hemisférica”, o Brasil protestará publicamente, mas se integrará em privado.
México: A era dos “Abraços, não Balas” acabou oficialmente. A mensagem de Washington é direta: Protejam seu território, ou nós o protegeremos para vocês. Isso cria uma pressão existencial sobre o México para finalmente reprimir os cartéis do norte.
VI. Conclusão: A aquisição hostil
Os críticos chamam isso de imperialismo. Estão travando as guerras do século passado.
Isso é relocalização. É o reconhecimento de que, em um mundo fragmentado, não se pode depender de inimigos para sobreviver. Os Estados Unidos decidiram transformar o Hemisfério Ocidental em uma Fortaleza Américas — autossuficiente em energia, alimentos e tecnologia.
Para investidores e estrategistas, o sinal é claro: a América Latina não é mais um “mercado emergente” definido pelo potencial e decepcionado pela política. É um ativo em dificuldades, passando por uma reestruturação hostil sob nova gestão.
O tabuleiro foi reconfigurado. Os Estados Unidos fizeram sua jogada. Agora, precisamos construir a paz.