ARTIGOS

Bolsonarismo da Paulista ao Marajó

Por AMANDA AUDI

Publicado em 04/03/2024 às 10:45

Alterado em 04/03/2024 às 10:45

Navegar pelas redes sociais é sempre uma incerteza. Parece que é do nada que um assunto surge, invade a esfera pública e entra na boca de todo mundo – seja por uma boa intenção ou não. Em meio ao oceano de informações que cruza nossas rotinas afogadas de telas, é preciso se perguntar: quais os meandros necessários percorrer em uma investigação até encontrar o jornalismo? Só assim para descobrir que nem tudo que você consome é por espontaneidade do algoritmo, mas por quem tem poder de influenciar o modus operandi das redes.

Bem, nos últimos dias, dois casos ganharam repercussão nacional: o ato pró-Bolsonaro realizado na Avenida Paulista, em São Paulo; e a suposta crise de tráfico humano na Ilha do Marajó, no Pará. Apesar da distância geográfica entre as regiões, duas reportagens da Pública foram capazes de descobrir um espaço ainda pouco conhecido entre elas: o backstage que comanda o que você visualiza na tela de rolagem das redes sociais.

Uma máquina determina quem e quais lugares serão alvo de determinados discursos carregados de muito poder político. Dizemos isso com base numa experiência pessoal. Eu, Danilo, passei o carnaval em Recife, cidade vizinha de onde minha família habita, Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. Durante a semana em que estive lá, não cheguei a receber nada, nem no feed nem nos stories, sobre o ato convocado pelo ex-presidente. Foi só o avião aterrissar em São Paulo que tudo mudou. As redes mudaram sua lógica.

Passei a ser bombardeado por propagandas de vereadores, deputados e senadores que, a partir de muito alarde, me convocavam para ser “um dos milhões que tomariam a Paulista”. Dias depois, numa chamada de vídeo com meu primo, ele comentou como também tinha passado a receber os mesmos conteúdos, só que em menor volume. Eram posts do deputado estadual de Pernambuco Ricardo Antunes (PL).

Foi a partir dessa estranheza que percebemos que ali na tela havia humanos ou algoritmos, carregados de muita influência política, querendo interferir no discurso e na narrativa. A incansável estratégia da extrema-direita do "nós contra eles".

Fomos atrás das informações por trás dos algoritmos, e descobrimos que políticos alinhados ao bolsonarismo estavam pagando para impulsionar conteúdos – tanto para convencer pessoas a irem ao ato em apoio ao ex-presidente, como para propagar desinformação sobre o Marajó. A intenção desses conteúdos é despertar sentimentos fortes em que os vê: eles passam uma noção de urgência, de que algo muito importante está acontecendo e é preciso se engajar. Mas sem revelar os reais motivos para tal.

No caso do Marajó, os posts impulsionados reforçam a ideia de que haveria uma rede de pedofilia e tráfico de órgãos acontecendo à revelia das autoridades. Nós sabemos que o arquipélago tem problemas sociais, assim como outras regiões brasileiras. Mas boa parte do que circulou pelas redes é apenas mentira. Um dos vídeos que seriam a "prova" do esquema e circulou exaustivamente em grupos no WhatsApp, por exemplo, sequer foi gravado no Brasil.

Passamos dias coletando dados, checando e rechecando informações, procuramos especialistas e pessoas que realmente conhecem a realidade do Marajó. Encontramos ainda pessoas e organizações que aproveitaram a comoção sobre o tema para pedir doações para supostamente ajudar as crianças, mas sem explicar direito como isso seria feito.

Um dos envolvidos é um grupo evangélico muito próximo da ex-ministra Damares Alves – que desde 2019 fala sobre os supostos casos de exploração infantil no Marajó sem jamais ter apresentado nenhuma evidência. Outra influenciadora que fez uma vaquinha chegou a ser presa na operação policial que investigou o "jogo do tigrinho".

Acreditamos que a internet traz um mar de possibilidades de conexão, circulação de conhecimento e emancipação de pessoas. Mas ela pode ser uma arma perigosa nas mãos de pessoas mal intencionadas. Por isso, é importante você entender a fundo o que se consome. Afinal, o que aparece na sua timeline não é obra do acaso. Há um mecanismo silencioso operando para fazer certos conteúdos chegarem até você.

Amanda Audi é repórter da Agência Pública.

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