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Abuso do Direito a Vida. (2)

Por ADHEMAR BAHADIAN
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Publicado em 25/02/2024 às 07:57

Apesar dos pesares, dos enganos e das maledicências, da ignorância real ou encomendada, a Diplomacia brasileira mostrou a que veio, o que está disposta a aceitar e sua enérgica determinação de rejeitar shows pirotécnicos que envolvam o país e seus dignitários.

Mauro Vieira é um homem de trato cordial, diplomata até a medula, mas mostrou que a tolerância ao desaforo tem limite e respondeu a ele com dois gols de placa.

O primeiro deles foi o de responder à altura a grosseria com nosso embaixador em Israel, convocado para uma conversa delicada pelo Chanceler local, levado a uma humilhação pública diante de audio e imagem internacionais. Show de arrogância. Politicagem baixa.

O segundo, sobre o qual pretendo falar um pouco neste espaço, foi a forma como Mauro conduziu a reunião de Chanceleres do G-20 e principalmente seu discurso sobre o momento delicadíssimo que estamos a viver neste ano de 2024, onde bruxas assanhadas estão a girar mundo afora.

Não é todo dia que se reunem ao mesmo tempo por mais de 24 horas na mesma cidade representantes diplomáticos do porte de Blinken e Lavrov, respectivamente chanceleres dos Estados Unidos da América e da Rússia. O Rio de Janeiro é foi um anfitrião perfeito. Obrigado, Eduardo Paes.

Certamente, o principal resultado palpável da reunião do G-20 terá sido a determinação do Brasil em dizer alto e bom som que não podemos viver num mundo fraturado e que, para nós, as soluções bélicas são intoleráveis.

Foi muito mais que discurso retórico. Foi a abertura de uma nova agenda diplomática, talvez da mesma importância da que marcou o fim da guerra fria e teria inaugurado o que se pensou ser o fim da história.

Agora, se constata no G-20, com o assentimento dos Estados Unidos da América e da Russia, que a história está longe de acabar e que os mecanismos multilaterais surgidos após a Segunda Guerra Mundial tem que ser revistos se quisermos levar a bom termo nossa existência no Planeta.

Forçoso reconhecer que órgãos como a OMC, ( Organização Mundial do Comércio) devem revisitar com outro espírito e com menor arrogância acordos internacionais como o referente aos temas de propriedade intelectual relacionada ao comércio( TRIPS) que , num mundo sujeito a epidemias e pandemias não pode se constituir em obstáculo legal à razoável disseminação de vacinas e medicamentos, imensamente prejudicada por uma distorcida visão do Direito Internacional e pelo abuso de uma concorrência cada vez mais desleal, enrijecida em mecanismos de concentração do poder econômico que as leis anti-trustes haviam mitigado antes da religiosidade satânica trazida pelo neoliberalismo e pela globalização assimétrica.

Nunca um diálogo entre os BRICS e o G-20 foi mais urgente. Nunca uma cooperação tecnológica entre a o Brasil e a India foi mais necessária. Nunca a atração de capitais chineses ou americanos serão mais indispensáveis ao nosso neoindustrialismo porque aqui não nos faltam os minerais necessários à nova revolução tecnológica.

Criticar a atividade diplomática, chamando-a de um ativismo terceiro mundista, é prova de ignorância ou de má-fé. Nunca Democracia e Desenvolvimento haviam se tornado um binômio tão evidente e não é à toa que os postulados avançados por Trump em busca de um novo mandato mergulham num lodo pantanoso de mentiras a exigir pronta e imediata correção pelo judiciário americano.

Desta decisão realmente poderá vir o fim da história. Ou o renascimento de um mundo mais racional em todos os sentidos da palavra que identifica o homem como um ser racional.

E aos meus empedernidos ideólogos do caos que insistem em dizer que Lula ofendeu nossos amigos judeus- que os tenho e muitos- sugiro lerem as declarações do Chanceler da União Européia , em nome de toda a Europa, veiculada mundo afora.

Isto para não falar na importância de ler o discurso do representante chinês no Tribunal de Haia.

O Direito internacional se revigora. E o Brasil também.

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