ARTIGOS

Samuel e a nossa circunstância

Por ADHEMAR BAHADIAN
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Publicado em 04/02/2024 às 09:05

Alterado em 04/02/2024 às 09:05

Samuel Pinheiro Guimarães, embaixador de carreira, humanista, escritor, economista, professor, homem de caráter, corajoso e íntegro, nos deixou esta semana.

Fomos amigos por mais de meio século e nos conhecemos antes que entrássemos no Itamaraty. Devo a sua generosidade ter-me aproximado de Sergio Watson, meu primeiro chefe no velho Itamaraty da rua Marechal Floriano. Devo a Samuel igualmente minha transferência para o setor econômico do Ministério , uma das áreas mais prestigiosas onde pontificava nos anos 60 a nata de uma nova geração de diplomatas.
Esta geração, nascida entre os últimos anos da década de 30 e os primeiros anos de 1940 enfrentou o vestibular temível do Instituto Rio Branco com a determinação de sermos agentes de uma nova diplomacia, inicialmente chamada de independente e posteriormente doutrinariamente enriquecida pela inteligência e o saber jurídico de Francisco Clementino de San Tiago Dantas.

Coincide este tempo com a arrancada do Brasil no caminho de sua industrialização, empreitada liderada por JK - um dos maiores presidentes democratas que o Brasil já teve - com o apoio dos estudos seminais de Celso Furtado, do risco ousado de Niemeyer e, no plano internacional, a descolonização e a formação de novos Estados nacionais por guerras ou acordos.

Juntamente com as aspirações desenvolvimentistas traduzidas em ação internacional pelo projeto de Raul Prebisch e de Celso Furtado, surgia, inclusive com a participação brasileira desde os inícios dos anos 60, no ECOSOC- Conselho Econômico e Social da ONU- a iniciativa de se criar um órgão multilateral para promover o desenvolvimentos dos países então chamados subdesenvolvidos. Surge a UNCTAD, sigla inglesa da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento.

O processo de descolonização e o movimento independentista dos países africanos e asiáticos, por razões que não posso explicar nas dimensões dessa crônica, tornou-se presa fácil da disputa entre os Estados Unidos da América e a então União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, enfeixada no que se convencionou chamar de Guerra Fria.

Duas consequências derivam para o Brasil: a contaminação da Guerra Fria sobre nossos projetos de desenvolvimento econômico e sobre a nossa soberania política no potencial uso de armas nucleares .
A euforia da Política Externa Independente sucumbe no ano de 1964 com o golpe militar que não admite nem compreende as nuances, os atritos e os interesses econômicos em jogo nas reivindicações de desenvolvimento econômico trazidas pela descolonização.

Equivocadamente passa-se a priorizar o perigo vermelho da URSS a supostamente se sobrepor aos interesses dos Estados Unidos da América, na América do Sul, em especial no Brasil.

Não é por outra razão que o primeiro discurso do presidente Castelo Branco no Itamaraty é conhecido como o do “bifrontismo” porque nele o presidente deixou claro que o Brasil deveria pautar seus interesses em comum acordo com os dos Estados Unidos da América como se fossemos países iguais economicamente. E seria bifrontismo intolerável o que Kissinger chamava de realismo.

Em pouco tempo, nossa política externa tornou-se mais dependente do que nunca, porque passou-se a considerar que muito da doutrina Furtado-Prebisch teria forte conteúdo marxista. E a UNCTAD seria seu porta-estandarte.

Iniciou-se no Itamaraty uma fase de longos anos barrocos em que se considerava próximo o dia em que os Estados Unidos da América se disporiam a fazer um plano Marshall para o Brasil, em reconhecimento a nossa fidelidade quase ingênua. Quem não se lembra da célebre frase de um importante político brasileiro, à época nosso embaixador em Washington: “ O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”?

Durante quase 20 anos, os negociadores brasileiros sofreram dois tipos de coerção : uma do próprio governo que vira e mexe solicitava explicações pormenorizadas sobre nossas posições "extremadas" nos organismos internacionais. A segunda era ouvir de negociador americano arrogante que defendíamos posições não apoiadas por nosso ministro da Fazenda, preocupado com nossa dívida externa, portanto dependente do FMI, do Consenso de Washington e outras malemolências do tipo “vem cá, meu louro”.

Esta situação só melhorou no Governo Geisel, quando o embaixador Azeredo da Silveira assumiu a Chancelaria brasileira e criou o slogan “Pragmatismo Responsável” para nos permitir falar em igualdade soberana dos Estados, coisa que Rui Barbosa já falava em Haia.

O grande serviço que nos prestou Samuel foi o de ter sido um defensor inabalável do interesse nacional e de ter registrado em livros a batalha inacabada pela soberania do Estado brasileiro. Enfrentou punições administrativas por se ter oposto de forma visceral à ALCA. Uma nódoa só comparável ao abandono de meu colega José Mauricio Bustani aos ataques vampirescos de John Bolton, assessor direto de Bush filho. Um manual de carnificina diplomática.

Poucos anos depois, já como secretário-geral do Itamaraty , Samuel foi um gigante, juntamente com Celso Amorim, ao participar das negociações sobre este acordo leonino e desarmá-lo. Nesta empreitada, tive o prazer de entrar em campo. E senti a pressão.

Samuel - até seus adversários reconhecem - foi um Patriota. Muito merecida a homenagem que lhe fizeram o presidente da República e o ministro das Relações Exteriores ao permitir que seu corpo fosse velado no Palácio Itamaraty, casa que honrou por mais de 53 anos de vida.

Seus livros esclarecem para a geração atual de diplomatas, e para todos os interessados na política externa dos últimos 50 anos, muito do que a geração dos 40 fez e sobretudo o que deliberadamente impedimos que se fizesse.

XXXXX XXXXXX

EM TEMPO: Não custa nada recordar que a resistência de Samuel, e de muitos outros diplomatas, hoje se mostra acertada. O caos que estamos a viver - inclusive o extremismo nos Estados Unidos de Trump- evidencia o erro histórico de um neoliberalismo antropofágico do qual ainda não nos livramos e que até ameaça voltar.

2. A geração que nos sucede terá hoje uma visão mais nítida dos interesses nacionais, embora ainda persistam bolsões de resistência à construção de um Brasil soberano com uma sociedade mais justa nos termos de nossa Carta Constitucional de 1988.

3. Apesar de tudo, nos conforta imensamente assistir as aulas de reconstrução harmoniosa de nossa política como demonstrado nos encontros de Lula com o governador de São Paulo, homem a quem não se pode desconhecer a inteligência e o conhecimento técnico. E Lula é membro honorário de todas as gerações de Bem de nosso país.

4. A opção de Trump e seus seguidores mundo afora nos propõe apenas a perpetuação de um capitalismo eivado de erros do colonialismo mais parasita de que ainda não conseguimos nos livrar.
6. Como disse John Kennedy em seu discurso de posse, podemos pedir as bênçãos de Deus, mas devemos saber que nosso trabalho nesta terra é “fundamentalmente humano” .

 

Adhemar Bahadian. Embaixador aposentado

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