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8 de janeiro: um ano depois

Por MARIA CLARA BINGEMER
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Publicado em 10/01/2024 às 18:57

Alterado em 10/01/2024 às 18:57

Acompanhar pela TV e pela grande imprensa os episódios terríveis do dia 8 de janeiro de 2023 traz sentimentos misturados e a perplexidade de estar diante de um fato no mínimo complexo. Por um lado, o espanto de ver como se chegou àquele nível de vandalismo no dia seguinte à festiva celebração da tomada de posse do novo governo eleito. O Brasil respirava e se orgulhava do que estava começando a viver novamente: liberdade, respeito, justiça priorizada, diversidade e inclusão. Por outro, a consciência da profunda polarização que rachava o país em dois. Manifestada no resultado apertado das eleições, essa rachadura profunda fez a festa da democracia durar pouco. Agora, uma semana depois, a violência e a intolerância escancaravam sua boca desdentada e sanguinolenta na violência que se abateu sobre os símbolos dos poderes da república.

Recordo o desanimo sentido por mim e por tantos ao presenciar aquelas cenas macabras de desrespeito a tudo que o país possuía de bom, de belo, de justo. Nem obras de arte foram respeitadas e se tornaram igualmente vítimas do vandalismo desesperado que se negava a aceitar o resultado das urnas e lançava-se feroz sobre os três poderes, sobretudo o judiciário.

A multidão que naquele dia invadiu a esplanada e entrou nos palácios e edifícios públicos era igualmente inexplicável e bizarra. Ao lado de senhores e senhoras de minha meia idade e até mesmo nela mais avançados, com seus cabelos brancos e roupas comuns e correntes, viam-se jovens que utilizando sua força física quebravam vidros, móveis, paredes e depredavam o patrimônio público. Todos em aliança, todos colaborando, construindo uma impossível e macabra (des)harmonia para expressar uma mesma coisa: seus sentimentos antidemocráticos. Perplexos estivemos e até hoje estamos ao ver quantos e tantos inimigos a democracia tem neste país que conseguiram organizar e levar a cabo uma tentativa de golpe daquele porte, invadindo e deflorando a recém consagrada aliança do povo com uma nova etapa da sua história.

Não concordavam com os resultados das eleições, questionavam as urnas eletrônicas, e em lugar de tomar as vias políticas e pacíficas para manifestar seus sentimentos, optavam pelo quebra quebra, pelo vandalismo e pela truculência. O desfecho anunciou-se terrível e mortal em mais de um momento. Se não houvesse serenidade, calma, decisões tomadas com sangue frio e sem ferir as instituições e seus rituais e liturgias, não se pode sequer imaginar quantas vítima fatais poderiam neste momento manchar o imaginário brasileiro. Se as forças da ordem houvessem sido acionadas irresponsavelmente, hoje o Brasil estaria em um lamento coletivo e depressivo, enfrentando pranto sobre perdas e pouco ou nenhum ganho.

O que celebramos hoje é, sim, uma vitória da democracia. E por isso nos alegramos e damos graças a Deus. A manifestação foi contida, responsáveis presos. Alguns já receberam sentenças outros aguardam julgamento. Tudo dentro da ordem e do respeito que a mesma democracia exige. Por isso se pode celebrar a verdadeira festa. Aquela que ritualiza um desenrolar de atos e fatos que se mostraram respeitosos e reverentes ao maior patrimônio que o país tem: seu povo.

Em um momento em que o mundo enfrenta inúmeras guerras, algumas terríveis, seja porque se dão entre irmãos da mesma etnia, seja porque seu início já se dá com matança, crueldade, massacre e provoca reações ainda mais violentas desses mesmos atos o Brasil é um exemplo para o mundo. A dignidade e serenidade do governo em sua atuação, diante da agressão repentina e inesperada foi realmente admirável.

Um ano depois, o processo continua. Prisões foram realizadas, sentenças proferidas, outras aguardam julgamento. A justiça segue seu curso sem ferir a democracia nem a dignidade do povo brasileiro. Talvez seja essa a maior lição a aprender desta data que ficará marcada na história do Brasil: 8 de janeiro de 2023. A lição de que não se defende democracia com violência desmedida e agressões truculentas. Defende-se com institucionalidade, com decisões firmes e ancoradas no respeito à liberdade e às instituições.

Um ano depois: a democracia brasileira pode ser jovem e incipiente, mas está mais robusta agora. E isso permite ter esperança.

 

Maria Clara Bingemer. Professora do departamento de Teologia da PUC-Rio

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