Um novo sapinho aquece debates para criação de parque nacional

Nomeado com referência ao presidente Lula, o anfíbio é a 45ª espécie de um gênero exclusivo da Mata Atlântica brasileira

Por JB AMBIENTAL com O Ecco

O Brachycephalus lulai equilibrado na ponta de um lápis

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O trabalho em laboratório foi igualmente decisivo para uma identificação precisa.v“Análises moleculares e do canto foram fundamentais”, explica Bornschein, já que a cor é similar entre espécies da família e o som ajuda a separar o que o olho confunde.

Ribeiro detalha que pesquisadores organizaram o gênero Brachycephalus em três grandes grupos, com diferenças marcantes. “Há conjuntos mais coloridos e montanhosos, outros com placas ósseas no dorso e os chamados ‘sapos-pulga’, ainda menores”.

O nome científico escolhido também ganhou destaque: Brachycephalus lulai. A referência ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, segundo Ribeiro, aponta a uma bem sucedida política de estabelecimento de áreas protegidas federais.

“Nunca nenhum outro governo criou tantas unidades de conservação quanto nos mandatos dele”, afirma o pesquisador, lembrando que, segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), foram estabelecidos 25 milhões de ha em reservas ecológicas no período.

Vulnerabilidade térmica
Do ponto de vista climático, Bornschein avalia que a espécie pode ser menos vulnerável no curto prazo do que alguns de seus parentes. Com a crise, o ambiente onde vive tende a subir, avançando sobre os campos de altitude, num “movimento que o anfíbio pode acompanhar com o avanço da vegetação”.

A principal ameaça, porém, vem de ações humanas mais diretas, como desmatamento e degradação das serras, ainda verdadeiras “ilhas no céu”. “Qualquer perturbação maior no ecossistema pode comprometer toda a população de uma vez”, resumiu Ribeiro.

Essa vulnerabilidade levou cientistas e ongs como a Mater Natura a defender o desenho de uma unidade de conservação que proteja as florestas nebulares e campos de altitude na região. A entidade ajudou a identificar quatro em cada dez das espécies do gênero Brachycephalus.

A proposta na mesa de negociações é a de um parque nacional abrigando parte das serras do Quiriri (SC) e do Araçatuba (PR), protegendo espécies endêmicas e serviços associados às montanhas, como fontes de água, turismo sustentável e estabilidade climática.

O parque, porém, não é consenso. Enquanto parlamentares asseguram que o traçado não atinge nenhuma família agricultora ou propriedades produtivas, outros políticos criticam seu desenho e restrições ao uso da terra, e cobram ampla participação social nos debates.

Por isso, o presidente da Mater Natura, Paulo Pizzi, defende que a decisão olhe além do curto prazo. “Se esses ambientes de montanha desaparecerem, perdemos não apenas espécies, mas também histórias evolutivas que ainda nem compreendemos por completo”, descreve.

Isso evidencia que essa disputa vai muito além de proteger espécies ou de um traçado no mapa: envolve qual modelo de proteção e de desenvolvimento prevalecerá naquelas montanhas sulistas.