MEIO AMBIENTE

Pânico no ar: fogos de artifício do réveillon afetam milhões de aves

Pesquisa feita na Holanda mostra que aves são afetadas mesmo a uma distância de 10 quilômetros dos fogos de Ano Novo, sujeitas a estresse e maior gasto de energia

Por JB AMBIENTAL com O Eco
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Publicado em 26/12/2023 às 09:06

Alterado em 26/12/2023 às 09:06

Em resposta aos fogos de artifício, em média 1.000 vezes mais aves alçam voo no céu noturno, revela estudo Foto: Pxhere

Duda Menegassi - Virada de ano é sinônimo de fogos de artifício. Com explosões barulhentas que colorem os céus em todo o mundo, esta celebração do réveillon que emociona multidões humanas é, entretanto, um martírio para as aves. Uma pesquisa feita na Holanda mostra que aves num raio de até 10 quilômetros de distância dos fogos são afetadas. Em resposta ao barulho e luz, há em média mil vezes mais aves no céu na noite de virada, comparado a noites normais, com picos de 10 mil a 100 mil vezes mais. Esse voo extra representa um súbito aumento de gasto de energia, o que provavelmente exige mais tempo de alimentação nos dias seguintes para compensar. Além disso, indicadores de estresse, como frequência cardíaca e temperatura corporal podem permanecer elevados por várias horas após o fim da queima de fogos, alertam os pesquisadores.

“As aves decolam como resultado de uma resposta de voo aguda devido ao barulho e luz repentinos. Em um país como a Holanda, com muitas aves migratórias no inverno, estamos falando de milhões de aves afetadas pela queima de fogos de artifício”, explica o ecologista Bart Hoekstra, da Universidade de Amsterdã, um dos autores do estudo, publicado no periódico científico Frontiers in Ecology and the Environment no início de dezembro.

Com radares meteorológicos e contadores de aves, os pesquisadores conseguiram calcular quantas aves alçam voo imediatamente após o início da queima de fogos, em que distância eles estão dos fogos e quais os grupos de espécies mais afetadas.

“Nós já sabíamos que muitas espécies de aves marinhas reagiam fortemente, mas ainda não estava claro como as aves fora desses corpos d’água reagem aos fogos de artifício”, conta o ecologista.

Os efeitos são mais fortes nas aves que estão a até 5 quilômetros de distância, mas mesmo num raio de 10 quilômetros ainda há pelo menos 10 vezes mais aves no céu do que o normal.

O estudo mostra que em resposta aos fogos, aves maiores como gansos, patos e gaivotas, que estão em áreas abertas, como pastagens, voam durante horas e em grandes altitudes. “Eles voam a centenas de metros de altura devido à descarga em grande escala de fogos de artifício e permanecem no ar por até uma hora. Existe o risco de que acabem num mau tempo de inverno ou de que não saibam para onde estão voando devido ao pânico e possam ocorrer acidentes”, pondera Bart. Os efeitos são menores perto de florestas e com aves menores.

No ano passado, uma outra pesquisa realizada por cientistas do Institute for Biodiversity and Ecosystem Dynamics (IBED), da Universidade de Amsterdã, mostraram que os gansos, em particular, são tão afetados pelos fogos que gastam em média 10% a mais de tempo do que o normal à procura de comida durante pelo menos os próximos 11 dias. A busca maior por alimento seria uma consequência da necessidade de repor a energia perdida durante a queima ou para compensar pela alimentação na área desconhecida em que foram parar após fugirem dos fogos.

O impacto da barulhenta celebração de Ano Novo é ainda maior, no caso da Holanda, por se tratar do inverno no hemisfério norte, período em que há menos horas de luz disponíveis para os animais diurnos buscarem alimento e abrigo. Como resultado da pesquisa, os autores do artigo defendem que sejam criadas zonas livres de fogos de artifício onde vivem estas aves de grande porte.

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