'Nove dedos': Fala capacitista de Flavio Bolsonaro para Lula em rede nacional toma a internet, e candidato da direita parece afugentar indecisos
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Foi um golpe abaixo da linha da cintura.
E o país que, no Censo de 2022 do IBGE, tinha 14,4 milhões de deficientes físicos, reage, pelo menos na internet, à fala capacitista de Flavio Bolsonaro para o presidente Lula em rede nacional.
Recorrendo ao discurso cruel e pejorativo de sua horda de seguidores, que desde há muito usam a expressão para se referir ao presidente Lula, que perdeu um dedo trabalhando como torneiro mecânico aos 17 anos, Flavio Bolsonaro, o senador "grã-fino" na fala do Lula, deixou cair a máscara de "bom moço" com a qual tem enfrentado a campanha política, inclusive com vídeo de sua mulher e cúmplice o tachando de "Bolsonaro moderado", ao chamar seu adversário de "nove dedos".
Um candidato à Presidência que acha natural acentuar a deficiência física de um semelhante em rede nacional não deveria poder sair do estúdio sem algemas.
Pedir desculpas por ato indesculpável, e só o fazê-lo depois que a outra parte disse ter-se sentido ofendida, pode ser eficaz na esfera judicial, mas no âmbito pessoal não resolve. O que fica, o que ecoa e repercutirá por muito tempo, é a agressão sem precedentes na história dos debates, onde o "sapo barbudo" do Brizola só tirava risos da plateia e divertia as manchetes do dia seguinte.
"Flavio Bolsonaro pode ter estampa, mas é inapto para a Presidência", resumiu uma internauta em um dos debates sobre o assunto na rede social X.
Esse dedo de Lula foi perdido numa noite, enquanto trabalhava na fábrica, aos 17 anos de idade. Não se zomba de um trabalhador por ter sofrido um acidente. Já o caráter de Flávio, ele nunca perdeu, porque nunca teve. Aos 20 anos já dava golpe. https://t.co/GBpM49nyAE
— PRAVDA-BR (@pravda_br) October 24, 2026
Crime, dívidas e Vorcaro
Os dois postulantes iniciaram o confronto na TV Globo evitando passos em falso para não perder votos e com uma postura mais branda do que a vista no último domingo (18), mas pouco a pouco o debate ganhou temperatura, com trocas de acusações entre os dois lados.
"Meu adversário não conhece o Brasil. A única imagem do estado do Amazonas que ele conhece é do pai dele imitando pessoas morrendo sem oxigênio [na pandemia de Covid-19]", disse Lula ao responder a uma pergunta de Flávio sobre a região Norte.
"Flávio, um pouco de seriedade quando você fala com as pessoas, senão elas pensam que você está brincando", acrescentou o presidente. O senador, por sua vez, ironizou a insistência de seu adversário em pedir que os espectadores consultassem o Google para buscar mais informações sobre os temas discutidos.
"Lula, quem governa o Brasil é você ou o Google?", questionou o filho de Jair Bolsonaro.
Durante o primeiro bloco, Flávio ainda desmentiu acusações da campanha petista e prometeu reajustar o salário mínimo e as aposentadorias acima da inflação e que não vai privatizar a Petrobras, a Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil. Além disso, saiu em defesa do governo de Javier Milei na Argentina, tido como "modelo" por sua equipe econômica. "Milei teve que arrumar o que a esquerda fez", disse.
Na fatídica fala sobre "nove dedos" ["Não adianta nada o salário mínimo ser de R$ 1,6 mil se você dá com uma mão e tira com os nove dedos"], Flávio teve de ouvir a resposta calado:
"Se tem alguém que sabe o que é o mundo do trabalho sou eu. Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos. Ele nunca trabalhou na vida, não sabe o que é uma carteira profissional. Ele vai ter que pedir desculpas. Eu era menor [quando ocorreu o acidente] e não vou aceitar que um grã-fino venha me chamar de nove dedos", declarou.
Em seguida, Flávio se desculpou muito rapidamente, sem remorso, e logo emendou que era Lula quem devia pedir perdão pelas mazelas sociais do Brasil. O senador também cobrou direito de resposta por ter sido chamado de miliciano e foi atendido, mas não mencionou a acusação e usou o tempo para abordar outros temas.
Na maior parte do tempo, Flávio tentou encurralar Lula com o endividamento dos brasileiros, além de acusar o governo de gastar em excesso, impedindo a queda da taxa básica de juros e impulsionando a inflação.
Lula, por sua vez, prometeu "acabar com as dívidas" das famílias, e defendeu a proibição das casas de apostas online, "que eu sei que meu adversário não gostou". "Nós vamos acabar com as bets, e sei que as mulheres são favoráveis", acrescentou.
Criminalidade e Trump
O combate ao crime organizado foi o principal tema do terceiro bloco do debate, quando Lula questionou Flávio sobre por que ele atuou na defesa de um policial acusado de assassinar a menina Ana Clara, de cinco anos, com tiros de fuzil, quando já era senador. A mãe da criança estava na plateia.
"Não consigo imaginar o que é perder uma filha de cinco anos, mas era uma troca de tiros em uma comunidade conflagrada, e eu tenho confiança de que sequer foi esse policial [o autor dos disparos]", respondeu o herdeiro de Bolsonaro.
Além disso, reforçou o discurso linha dura, com as promessas de reduzir a maioridade penal para 14 anos nos crimes hediondos, de aprovar a castração química para estupradores e de definir o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e as milícias como organizações narcoterroristas, em linha com a postura de Donald Trump.
Lula replicou que Flávio quer apenas entregar o Brasil para "Trump cuidar", e que "todo mundo sabe" da relação do presidenciável do PL "com muita coisa ruim do Rio de Janeiro". "Tem discurso dele defendendo miliciano, ele condecorou miliciano, deu emprego para mãe do chefe do Escritório do Crime", declarou o petista, em referência ao grupo de matadores de aluguel formado por policiais fluminenses.
No quarto e último bloco, os dois postulantes duelaram com tema livre e trocaram acusações sobre as relações com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Flávio acusou Lula de ganhar de presente um uísque que custa R$ 50 mil por dose, enquanto o candidato do PT disse que o senador pediu R$ 134 milhões ao empresário para o filme "Dark Horse", cinebiografia de Bolsonaro.
"O amigo do Vorcaro é você, o filhote do Vorcaro é você", afirmou o presidente da República, que ainda acusou o adversário de não entregar seus sigilos bancário, fiscal e telefônico. Lula também perguntou a Flávio como ele, com um salário de R$ 46 mil, conseguiu comprar uma "casa de R$ 10 milhões". "Foi com meu trabalho, sou empresário e advogado", rebateu o senador, tirando risos da plateia.
No fim do debate, o senador foi chamado novamente de miliciano e desta vez se defendeu da acusação. "Vou combater os milicianos e classificar as milícias como organizações terroristas", garantiu.
Neste sábado (24), os dois encerrarão suas campanhas com comícios nos três maiores colégios eleitorais do Brasil: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Lula fará caminhadas na praia de Copacabana e na Avenida Paulista, enquanto Flávio participará de eventos em Belo Horizonte e no Rio. (reportagem ampliada com informações da Ansa)